
Era no rio Nhamundá.
Uma vez, no tempo em que o catauri floresce, veloz cortava as águas do lago Marapé,
em direção da ponta do Aparatucu, uma montaria impelida pela força dos braços
de gentil tapuia.
Reclinada na popa, apoiava os pés no iamanchi de maniva
que tinha recolhido na roça, e manejava com graça a curta pá do remo que lhe servia de iacumaiba.
O sol dava em cheio na serra de Dedarô e dourava as águas do Dadauacá que tremiam
agitadas pelas brisas da tarde. Flutuando sobre o dorso, caíam esparsos os cabelos negros
e embalsamados da tapuia, presos na fronte por uma travessa enfeitada de jasmim e de
baunilha, o que lhe formava uma grinalda de virgem.
A saia curta era alva, a camisa decotada deixava nus os braços, e ocultava os seios
que transpareciam através da larga renda da gola e saltitavam pelos movimentos que os
braços davam aos remos.
Cantava entredentes... cantava endechas, reminiscência da
taba de seus avós.
Estava na época em que a mulher se lembra da infância e sonha com as volúpias que a
puberdade oferece.
Ligeira vogava a montaria, porque as moracanás palravam nas folhas do iauarizal.
Repentinamente a tapuia estremeceu, viu passar perto, muito mansamente, uma montaria
impelida pelo remo de um jovem tapuio que lhe era desconhecido.
Ia sozinho, e tão ardente era o seu olhar que ela corou.
Ele era ágil e vigoroso, tinha os ombros nus e o peito descoberto. As calças
arregaçadas mostravam as pernas nuas, bem feitas e musculosas. Atravessou o rio e
sumiu-se entre as ilhas. Sem saber por que, ela suspirou e descuidosa manejou o remo. A
montaria impelida fendeu as águas, porém doidejava, porque os olhares da tapuia
procuravam entre os galhos da aiurana os do tapuio.
Cismando vagou pelo rio.
Era noite quando chegou ao igarupaua. No tijupar a velha
filha dos Uabois esperava a neta.
- Se temiariron re maha sera piraiauara? (Encontraste minha neta com o boto?)
A cunhantã corou e deixou pender a fronte.
- Pia sui temiariron puruissuis re icu!... (Estás desgraçada, minha neta, de
coração te digo!...)
A neta subiu a ribanceira e na sua maquira ocultou a fronte, enquanto a velha metia
nágua o paneiro de mandioca com que mais tarde ia fazer o tarubá.
O urutahi já tinha cantado três vezes, quando a lua levantou-se pálida e
melancólica.
A tristeza reinava nos arredores; somente o uacurau
quebrava o quiriri da floresta e tudo no tijupar parecia dormir.
De repente os cães acuam e lançam-se furiosos para a margem do rio, onde as águas
ferviam.
Um bando de botos saltava e brincava, fazendo tal ruído que despertava o latido e os
uivos das cabanas longínquas. Neste momento uma figura, cujas vestes branquejavam,
rápida desceu a barranca. Era a tapuia que não tinha dormido e cujo coração palpitava
ao menor rumor das águas sobre a praia.
Quando seus pés tocaram a praia, restabeleceu-se um silêncio profundo, os botos
desapareceram e uma montaria atravessou, conduzindo uma sombra humana.
A cunhantã o reconheceu, era o piraiauara.
Imóvel, seguiu com a vista a montaria que com graça ia de bubuia, quando a
surpreendeu a voz de sua avó que do alto da barranca gritou:
- Maué keté taha ressó putari? (Onde tu queres ir?)
A tapuia dissimulou, baixou-se, meteu nágua a cuiambuca, suspirou, e trazendo-a
pelo dedo, subiu a barranca. Depois desta noite passaram-se muitos dias, continuando no
lago Marapé os amores platônicos da cunhantã e do piraiauara, o que a tornava cada vez
mais triste e cismada.
Os conselhos da velha filha da floresta não produziam mais efeito em sua neta, e em
esperar por ela um dia que voltasse do manival.
Era quase meia-noite, e a suinara com um rir estrídulo
fazia estremecer a índia que estava assentada à porta do tijupar.
Corriam placidamente prateadas pela lua as águas do Nhamundá, quando ela viu um vulto
branco levado pela corrente rodeada de tucuxis, dos quais uns faziam a vanguarda,
cabriolando em linha. Momentos depois ouviam-se na praia o pranto e frases repassadas de
dor; era a índia que inclinada sobre um cadáver, dizia :
- Se temiariron hum iucá aua pirayauara recê. Aarán! Pau cha sais su yepé!...(
Minha neta suicidou-se por amar o boto! Coitada! Eu a amava tanto!...)
A tapuia havia-se deixado seduzir e no fundo do lago tinha ido gozar as delícias de piraiauara.
A crença do boto, o delfim fluvial do Amazonas, tornou-se poderoso instrumento de
corrupção. Os Don Juan citadinos, os regatões dos
negociantes de quinquilharias, que são a praga do comércio amazônico e que viajam de um
porto a outro vendendo suas mercadorias falsificadas por preços vergonhosamente onzenários. Rebutalho da civilização eles não hesitam em se
prevalecer da superstição dos tapuios. Muito arraigada está a crença nos poderes do
olho de boto; tais objetos atraem às praias as jovens índias para ludibriá-las. O boto
tem as costas largas: um desaparecimento, ou uma gravidez, é logo colocada à sua conta.
(NÉRI, Frederico José de Santana. Folclore brasileiro)