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Fio inspirado em desenho de muiraquitã.
DEVOCIONÁRIO DA PAIXÃO

O povo é devoto por excelência da Paixão de Cristo – o Bom Jesus; das Dores de Nossa Senhora, representada na iconografia com o coração atravessado por uma espada e dos personagens santificados do drama do Calvário, tema obrigatório nos circos e cinemas na Semana Santa. Conhece as lendas que cercam as figuras de Dimas e Gestas, o bom e o mau ladrão; de Barrabás; de Longino, o soldado; das Três Marias; de Pedro, negando antes que o galo cantasse pela terceira vez, como está no Evangelho.

O Domingo da Paixão, hoje quinto da Quaresma, que antecede o Domingo de Ramos, é para o povo o Domingo de Lázaro. Não o personagem do Evangelho, amigo de Jesus e por ele ressuscitado, mas aquele outro da parábola (Lucas 16, 20), o mendigo coberto de chagas, que se fez símbolo do mal de Hansen. Muitas pessoas observam nesse dia rigoroso jejum e abstinência de carne, a reviver o bíblico temor da lepra – mal de Lázaro.

Nas chamadas zonas velhas, a noite de quinta para sexta-feira santa era considerada o Dia da Malvadeza, em decorrência da traição de Judas. A esse pretexto, enquanto os fiéis se revezavam na guarda do santo sepulcro, alguns se permitiam tropelias pelos sítios e furtos de animais. Vestígios desse curioso e rude costume são assinalados na região de Jundiaí-Pirapora.

Tudo a culminar com o prestígio inalterado das cerimônias do lava-pés, na quinta-feira santa; da agonia no horto e do Descimento da Cruz, que retoma nas igrejas o caráter de drama sacro de raízes medievais; da procissão do Enterro, com os seus figurantes, matracas, o canto da Verônica e ao fim o beijamento do Senhor Morto, na noite de Sexta-Feira Santa.

Por ocasião da Semana Santa, vê-se pelos caminhos a figura bizarra do cruciferário, ou seja, romeiros que carregam aos ombros uma cruz de madeira em sinal de penitência. Demandam principalmente o santuário de Bom Jesus de Pirapora, hoje Pirapora do Bom Jesus, quando não o fazem em outras épocas do ano, em cumprimento de promessas, também em Aparecida.

Guardava-se, na Sexta-feira Maior, absoluto silêncio. As locomotivas não apitavam, nem se batia o ferro, para não lembrar o ruído das lanças dos soldados romanos. Muitos nem acendiam o fogo, e a comida não era preparada, dando ênfase ao jejum canônico. Daí a sobrevivência, no Vale do Paraíba, do costume de servir-se nesse dia a paçoca de amendoim, conforme pesquisa de Maria de Lourdes Borges Ribeiro.

Da Aleluia, que hoje se festeja no Domingo da Ressurreição, resta como traço folclórico autêntico, desde a confecção artesanal, a malhação de Judas. Mantém redutos na capital e em outras cidades, como em Itu, onde tem colorido especial, comportando as costumeiras críticas sociais e políticas expressas no boneco de pano em que, até hoje, Judas expia seu pecado.

Antes da malhação é feita a leitura do Testamento de Judas, longa série de quadras ou enfática declaração em prosa, com doação, em tom humorístico ou satírico, de seus bens (paletó esfarrapado, meia rasgada, calça remendada, etc.) a pessoas da localidade.

É ligada ao ciclo da Paixão, embora se situe fora dele, pois do contrário não comportaria o sentido de fiesta, a mais difundida festa religiosa do estado: a do Bom Jesus. A 6 de agosto, a Transfiguração do Tabor, o povo venera e glorifica o Cristo do pretório de Pilatos, o Ecce Homo, seminu, flagelado, coroado de espinhos e tendo nos braços uma cana-verde, à guisa de cetro real: Bom Jesus da Cana-verde!

Festa de romarias e pagamento de promessas, regurgitam de devotos os santuários tradicionais de Iguape, no Litoral Sul; de Pirapora do Bom Jesus, no Tietê; de Tremembé, no Vale do Paraíba e de Bom Jesus dos Perdões, no Vale do Atibaia, todos facilmente acessíveis pela rede rodoviária. No passado, porém, devido às dificuldades de transporte, os romeiros permaneciam acampados dias e dias ao redor dos santuários, entremeando de divertimentos profanos, especialmente o jogo, as práticas devotas


(DAMANTE, Hélio. Folclore brasileiro; São Paulo)
Veja também:

-
Domingo de palmas.

- O testamento de Judas.

- Semana Santa de outrora.

- O tempo chegado.

 

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