Ir para a página principal


Festança
Cancioneiro
Imaginário
Oficina
Palhoça
Colher de Pau
Panacéia
Catavento
Almanaque
Candeeiro
Mural
Expediente


Folhinha

Arquivos

Outras Edições

Busca

Retornar para Festança
Fio inspirado em desenho de muiraquitã.
DOMINGO DE PALMAS
5 de abril de 1846

Jamais um domingo de palmas despertou como este, em manhã tão formosa. A terra e o céu são de uma transparência única. A natureza despojou-se de sua lançadeira e recusa-se a tecer uma jarda que seja de tela flutuante. Cada monte brilha no cume e nas fraldas e há uma influência estimulante e balsâmica na atmosfera que faz a alma vibrar de prazer. Ao pequeno almoço, dona B., a senhorita C., e a velha senhora O. voltam da confissão, e eu só podia admirar como criaturas sugestionáveis pudessem aliviar-se assim de suas ansiedades atuais e de seus receios futuros, mediante o uso de fórmulas empíricas. Riam e tagarelavam com tal leveza juvenil que o próprio Santo Antônio seria capaz de acompanhá-las num coro.

Saí para observar os costumes do dia. As ruas estavam juncadas de vendedores ambulantes, e de comerciantes tão ocupados hoje como ontem em suas lojas. Vi uma senhora em seu caminho para a igreja, acompanhada por um escravo trazendo em cada mão uma haste espessa de palmas, adornada com fitas. Ofertórios análogos via-se que dirigiam ao Convento dos Capuchinhos, no Morro do Castelo. Um ramalhete vivo, do tamanho de uma saca, notava-se disposto em torno da extremidade superior de uma palma. De cada lado, em hastes separadas, viam-se dois campos de veludo verde, com ramalhetes no centro, e com flores e fitas nos ângulos – oferenda de três jovens senhoras que os precediam.

Na rua da Glória vinham estranhos rumores de uma viela, como se uma hoste de inocentes estivesse sendo dizimada. Perto da igreja da Lapa, vi logo a origem deles. Aqui estavam dois negros, preparando e uma negra vendendo cornetas de palmas – lindos brinquedos que variam em extensão de vinte a cinqüenta centímetros; alguns lisos e retos, outros enfeitados e curvos como os chifres dos carneiros dos tabernáculos. Fazem-se pela justaposição de folhas de palmas. Sua música imita surpreendentemente gansos e patinhos agitados e os grunhidos de leitões chamando por suas mães.

Entrei na sacristia da Igreja da Lapa, onde quatro monges estavam sentados a uma mesa em meio a ramos de palmas, que eles aspergiam com água benta. Um cavalheiro deu doze vinténs e recebeu seis folhas em troca. Pessoas de ambos os sexos acotovelavam-se em torno dos mercadores e mantinham-nos sempre ocupados. Palmas bentas são muito consideradas por seu poder de manter o demônio afastado de casa.

A visão de soldados à porta da Capela Imperial induziu-me a entrar. Duas fileiras de alabardeiros formavam uma passagem no meio da nave, e logo após a porta da sacristia (perto da rua) se abria e saía o bispo com doze padres, um segurando-lhe a cauda e erguendo-a até o altar, enquanto os outros por sua vez desdobravam-se em reverências e outros estranhos gestos. Terminaram a função e eis que irrompeu um cântico de mulheres; é o que qualquer estrangeiro teria pensado desde que estivesse em posição de não ver quem estava cantando e esta foi a minha impressão, até que vi alguns deles. Eram eunucos italianos – presentes da Madre igreja romana à sua filha brasileira.

O bispo aspergia e rezava sobre feixes e feixes de palmas; então ele e um grupo de padres, cada um com um ramo na mão, dirigiram-se, em procissão lenta, até à porta e saíram. Dando uma pequena volta no átrio, voltaram à porta, que logo após tinha sido fechada e nela batendo, eram readmitidos, quando então se dirigiram ao altar, cantando versos adequados. O seu regresso simboliza a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. A cerimônia é a mesma em todas as igrejas. Quando o imperador está presente, ele também sai com o bispo e também bate para tornar a entrar. A cena era insípida e a assistência pequena. Havia-se preparado um banco baixo para doze pobres homens sentarem-se para o bispo lavar-lhes os pés. A operação teve lugar enquanto eu estava na igreja do Carmo, cujo interior poderia ter sido tomado por um salão de baile de Londres ou Paris. Altas pranchas com anjos pintados, dispunham-se à entrada, precisamente como os cenários de teatro. É um velho costume revelar numa festa destas toda a prataria da igreja e por isso a frente de um dos altares cobria-se de trabalhos de prata em relevo: candelabros em trípode alternavam com vasos prateados, e oito lâmpadas maciças do mesmo metal pendiam do teto. Nossa Senhora do Carmo brilhava num esplendor de prata.

Tinha sido aconselhado a passar pelo mosteiro dos Beneditinos, mas ali as cerimônias já se tinham concluído e os fiéis já vinham descendo o monte, enquanto eu principiava a subi-lo – era uma multidão de mulheres lindas, risonhas e de olhos negros, acompanhadas de seus filhos, e de uma tal profusão de correntes, fitas, anéis, brincos como eu jamais vi. Cheguei. Observando de perto as paredes da capela, viam-se anjos espiando da floresta de arabescos de ouro. No templo estava inscrita a data de 1694. Viam-se ali querubins em legiões, de vinte e cinco a trinta centímetros de altura, em todas as posições imagináveis, corados, e quatro quintas partes deles em relevo, provavelmente de origem holandesa, pois cada um deles mostrava-se com anasarca no corpo e elefantíase nos membros.

Entrando para a área interna, notei na minha primeira visita que estava diante de um espetáculo, considerado o dia e o lugar. Além dos padre e alguns curiosos, alguns cinqüenta carpinteiros, desenhistas, gravadores, pintores e maquinistas estavam ocupados, entre madeira, escadas, bancos, telas e potes de tinta. Um negro, com giz e compasso, estava fazendo ornatos de fantasia, enquanto outro ia serrando coisas equivalentes. Estavam ali esqueletos de colunas, e homens, com brocas de um metro de comprimento, pintando arabescos e flores sobre telas estendidas no chão.

Seguramente estes monges podem ser tomados por engano como os veneradores de um santo inglês cuja imagem está na igreja de Stratford.


(EWBANK, Thomas. A vida no Brasil)
Ilustração de Percy Lau

Alabardeiros
– Soldado de infantaria armado de alabarda.

Análogos – Semelhantes. Que guarda analogia, semelhança com alguma coisa.

Anasarca – Edema generalizado em todo corpo.

Aspergiam – Borrifavam, molhavam de leve.

Átrio – Pátio interno; Vestíbulo que, nos palácios e outros edifícios, vai da entrada principal à escadaria.

Balsâmica – Que tem as propriedades do bálsamo.

Empíricas – Que se apóia exclusivamente na experiência e na observação, e não em uma teoria.

Hoste – Bando, chusma; Exército, tropa armada, na Idade Média.

Juncadas – Espalhadas, cobertas.

Ornatos – Adornos, enfeites.

Veja também:

- Devocionário da paixão.

- O testamento de Judas.

- Semana Santa de outrora.

- O tempo chegado.

Topo

Jangada Brasil © 2000