| MODA DA
"BICHARADA" Ajuntaram a
bicharada
pra fazer uma reunião
pra fazer uma grande festa
nesse centro do sertão.
A onça tinha uma filha
que era linda de feição
pra não misturar coa raça
fez casar com o primo-irmão.
Tamanduá era o padre
o lobo era sacristão
o macaco é o juiz de paz
e veado era escrivão.
A noiva sabia ler
o noivo disse que não
pra assiná o rogo do noivo
mandaram chamar o leão.
A barraca é do fandango,
a sala é da coleição; [="gente fina"]
já repunaro o gambá
por chegar de pé no chão.
[Mas] logo foi alumiado
pra servente do quentão .
mandaram chamar o bugio
pra servir os folgazão.
A capivara com a paca
se arranjaram num pontão.
Brinco de ouro nas orelhas,
Vestido de gorgurão.
Sapatinhos de fivela,
carreirinha de botão,
ficaram na maior forma
pra ser damas num salão.
Mandaram buscá instrumento
nesse centro de matão;
o tatu veio de viola,
o lagarto de violão.
Tocador que ali tocava
era um bando de pavão,
que cobriro o mundo inteiro
de toque de bamburrão.
O quati namorou a cutia,
pela réstia do lampião.
O caitetu chegou perto,
Ele foi, não achou bão.
Logo formaro uma briga
já arrancaro do facão.
Veio um bando de queixadas,
Levou tudo pra prisão.
MODA D "O POBRE E O RICO"
A vida da gente pobre
padece, não tem altura.
A vida da gente rica
Arregala e tem fartura.
O rico levanta cedo,
toma café com mistura.
O pobre bebe guarapa,
Quasi sempre sem doçura.
A sobremesa do rico,
marmelada e rapadura
o doce de gente pobre
miolo de abóbora madura.
A roupa de gente rica
fazenda boa que dura.
O trapo de gente pobre
É só remendo e costura.
Gente rica fica doente
vem logo o doutor e cura.
Quando o pobre fica doente
O remédio é sepultura.
Cavalo de gente rica
tem passo e tem andadura.
A égua de gente pobre
É calombo e pisadura.
O rico quer comer peixe
no mercado ele procura.
O pobre agarra na vara
E sai pra noite, às escura.
A perna de moça rica
é bonita e tem grossura.
Cambito de moça pobre
Inda perde pra saracura.
Quando gente pobre morre
vai gozar lá nas altura.
O rico vai é pros quinto
Fervendo na fervedura".
MODA DO "BATIZADO DO SAPINHO"
Eu fui assisti a uã festa
num dia desses passado,
que era uma festa de bichos
e eu achei muito engraçado.
Foi festeiro o senhor Sapo,
Em dia de batizado;
E eu também fui assistir
Porque era inconvidado.
O Coelho junto com a lebre
era madrinha e padrinho;
alegres, muito contentes,
foram batizá o sapinho.
Poi fizero o batizado
Bem lá embaixo do moinho,
E batizado o inocente
Por o nome de Joãozinho.
O Coelho virou e disse:
Compadre Sapo, vem cá.
O batizado está feito,
O vinho vamo tomá
O sapo então respondeu:
O vinho é mió nos levá
pra fazê a saudação
lá na hora do jantá.
Quando foi no fim da janta
o Coelho quis cortá chão:
o Sapo virou e disse:
- Compadre, hoje não vai, não;
pra festejá o batizado
vou fazê um pagodão;
hoje aqui nós adiverte,
com baile, samba e função.
Nesses treis divertimento,
divirta no qual quisé;
no terreiro tem o samba;
no salão o bate-pé;
no terreiro da cozinha
tem a dança do soaré."
E o sapo não se esquecia
De correr pinga e café.
Chegaro os bicho do mato
cada qual mais bem trajado.
No chegarem no terreiro
O festeiro foi louvado.
O festeiro nesse dia
Matou boi, matou capado.
Foi uma festa de estrondo,
Teve um farturão danado.
Já chegou o Tatu-canastra
com sua calça de bombacha
trazia a sua sanfona
de quarente e oito baixo.
Também trouxe a sua filha,
Cabelinho cacho-cacho,
Chapeuzinho de palheta,
Todo cheio de penacho.
Já chegou dona Raposa,
co a sua sainha preta
trazendo no seu pescoço
gravatinha borboleta
também trouxe a sua filha,
senhora Dona Julieta
pra fazê acompanhamento
trouxe a sua clarineta.
O Veado também veio
bem logo no escurecê
trazia sua viola
pra dança cateretê.
O companheiro do Veado
Era o seu Caxinguelê;
Cantava moda dobrada;
Custosa de se aprendê.
Foi chegando a macacada
tudo de caixa e pandeiro
louvando o dono da casa
dando vivas pro festeiro.
Já fizero uma redoma
Bem no meio do terreiro;
E tinha um macaco velho
Que disse que era guerreiro.
E lá no meio do samba
uma questão se formou
pramor do Macaco velho
um ponto que ele amarrou.
O ponto foi tão custoso
Que ninguém não desatou.
Foi por causa desse ponto,
Que o samba logo parou.
Já bem no meio do baile,
outra questão foi formá
só por causa da Cutia
dar tábua no Tamanduá ( "dar tábua= negar
contradança)
Já virô o Bandeira e disse:
Eu acho coisto já;
prego as unha na sanfona,
fez a sanfona pará.
Outra questão se formou
lá no meio do salão,
só pra'mor da Lagartixa
tá de pique com o Ratão.
Apagaro a luz que tinha
Ficaro na escuridão
Tramaro de ferro frio
Que fizerão um baruião.
Entrou o Sapo pro meio
e herdou um pescoção
saiu logo de pulinho
foi cair no ribeirão.
A Sapa pegou o sapinho
Foi pra boca do fogão,
A pobre Sapa gritando:
O negócio não tá bão!
O Sapo saiu da água
fazendo reclamação:
"Enquanto eu morar aqui,
eu não faço mais função.
O povinho deste bairro
Não tem mais educação:
Entra tudo na caiana [= cachaça]
Fica tudo valentão!
(AMARAL, Amadeu. Tradições populares) |
As modas que se não devem
confundir com as chamadas modinhas, gênero lítero-popular urbano, e não campestre
(ensina Amadeu) são a parte do cancioneiro popular da roça que melhor revelam
"o gênio inventivo do roceiro inteligente".
Amadeu Amaral define a moda paulista
como uma composição em versos rimados, feita para ser cantada, acompanhadas à viola.
Geralmente composta de várias estâncias quadras, sextilhas, oitavas em
linhas de cinco ou sete sílabas; "mas comumente de sete". A moda se distingue
da trova (berço) por ser esta composta de quadras soltas e anônimas, em
redondilha, pela maior parte de origem portuguesa, modificada pela colaboração
"inconsciente" dos cantadores. As modas "são mais genuinamente
nossas" , diz Amadeu e nelas encontramos "Coisas encantadoras" pelo perfume
da poesia silvestre, ora acre, ora suave, que desprendem".
(BRANDÃO, Adelino. Amadeu
Amaral e o Folclore Brasileiro)
Saiba mais sobre Amadeu
Amaral:
- Cronologia; Bibliografia; Depoimentos; Tradições
populares; Plano para coleta e classificação de
material folclórico |