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JOGO DE CASTANHA

Sendo Pernambuco conhecido por seus tradicionais cajueiros – tradição que vem desde antes e durante o tempo dos holandeses, graças à riqueza nutritiva não só da castanha, o verdadeiro fruto, mas do pedúnculo intumescido, carregado de sumo, constituindo o falso fruto, chamado caju – não é de admirar que a árvore e os frutos tenham-se constituído em fonte de motivos e temas folclóricos.

Para lembrar o folclore do cajueiro é bastante, como amostras, citar dois exemplos nos quais o saber popular utilizou o Anacardium occidentalis (nome científico do pé de caju). Um, romântica quadra que ainda não foi esquecida, correndo anonimamente de boca em boca:

Cajueiro, meu cajueiro
Carregadinho de fulô
Eu também sou pequenino
Carregadinho de amô


Outro é uma espécie de adágio, cujo alcance é mostrar a esperteza de uma pessoa sobre outra:

"Quando você vinha com os cajus, eu voltava com as castanhas". A este propósito, é indispensável o livro de Mauro Mota: O cajueiro nordestino.

Portanto, não é também de estranhar que a castanha, além de outros aspectos folclóricos, mostre-se como elemento de um dos jogos mais utilizados pelos meninos pernambucanos. Na verdade, como no caso do pião, o jogo da castanha é quase exclusivamente de menino. As castanhas são arrancadas dos cajus, que são chupados, usados em ponches (refrescos) ou doces, sendo depois de secas, isto é, sem a viscosidade que lhes é inerente, guardadas em latas e saquinhos pelos meninos. As castanhas, ainda verdosas, são chamadas maturis. Estas, tenras e de cor verde, geralmente são consideradas imprestáveis pelos jogadores, pois quando secam ficam murchas. Chochas, como são também chamadas. Ninguém aceita castanha chocha no jogo.

Há três tipos principais de jogo de castanhas em Pernambuco e especialmente no Recife. São eles: pitelo ou castelo, buraco e encosto.

O pitelo é qualquer objeto, mais ou menos leve, podendo ser facilmente derrubado pela castanha impulsionada pelo movimento dos dedos. Geralmente é uma castanha grande, que se equilibra de pé, outras vezes uma caixa de fósforo vazia.

O pitelo é colocado em terreiro bem batido e plano ou, o que é mais comum, uma calçada ou terraço.

À distância de uns quatro metros, enfileiram-se os participantes do jogo. Feito o sorteio, sai o primeiro, jogando a castanha para derrubar o pitelo. O arremesso da castanha pelos dedos obedece a várias técnicas. Uma delas, talvez, a mais comum: coloca-se a castanha deitada, quase sempre com a extremidade estreita voltada para o jogador, que, colocando o bordo da mão no chão, firmemente, flexiona o dedo indicador para dentro, preso pelo polegar. O indicador se liberta do polegar com violência, depois de visar o alvo, batendo na castanha que, atingindo o pitelo, derrubando-o, consegue para o parceiro as castanhas dos demais participantes.

Outra técnica: o dedo polegar servindo de apoio para impulsionar qualquer um dos outros quatro dedos.

Caso o pitelo não seja derrubado, a castanha arremessada fica à disposição do ganhador. O segundo parceiro tenta derrubar o objeto erguido. Se o conseguir, ganha a castanha do anterior e as dos outros. Caso contrário, deixa a castanha, como fez o primeiro. Assim, sucessivamente, até que um vencedor ganhe as castanhas acumuladas, em uma, duas ou mais rodadas.

O jogo do buraco consiste em colocar dentro de um buraco, aberto no terreiro, as castanhas dos participantes. À uma distância estipulada, joga o primeiro sorteado, tentando emburacar a castanha ou colocá-la o mais perto possível do buraco.

Terminada a saída, isto é, depois que todos deram a jogada inicial, o que botou a castanha no buraco ou dele mais se aproximou, fica com o direito de recomeçar o jogo, dando com o dedo na castanha que está mais fácil de emburacar, continuando, caso tenha sucesso, com as demais, até colocar a última, tendo como prêmio todas as castanhas participantes. Caso erre, entra o segundo parceiro, e assim sucessivamente até que todas as castanhas estejam no buraco.

No jogo do encosto, os parceiros ficam colocados à mesma distância de uma parede, a brincadeira se realizando numa calçada ou terraço. Aquele que colocar a castanha mais perto da parede é o vencedor.


(VALENTE, Valdemar. Folclore brasileiro; Pernambuco.)