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Extraídas do livro homônimo, de Amadeu Amaral

Detalhe da capa de Tradições Populares, São Paulo, Instituto Progresso Editorial, 1948.Estão com os pés em duas canoas
Dizem de quem se garante contra as alternativas desfavoráveis de uma situação, de modo que, decidindo os acontecimentos sempre fiquem bem. É o provérbio latino "Bonun est duabus ancoris niti" (Convé, amrarrar-se a duas âncoras), representando em francês por "Avoir deux cordes à son arc". Em italiano há uma variante: "Non bisogna tener il piede in due staffe". Não se deve ter os pés em dois estribos.

Falar no mau, aprontar o pau
Aplica-se, geralmente por brincadeira, quando uma pessoa aparece no momento em que dela se falava. Tem os seus correspondentes em italiano: "Quando si nomina il diavolo se ne vede spuntar la coda" (Quando se nomeia o diabo vê-se-lhe aparecer o rabo), e "Nomina un tristo – subito visto". Em francês: "En pariant du loup, ou en voit la queue".

O nosso ditado é bastante antigo na língua, como se vê de interessante estudo de João Ribeiro nas Frases feitas.

Filho criado, trabalho dobrado
Muito usdo entre as famílias de São Paulo. Dir-se-ia simples tradução livre do italiano: "Figli piccoli, guai piccoli – figli grandi, guai grandi". Mas ainda se parece mais a esta forma andaluza: "Hijos criados, duelos dobrados".

Os filhos, depois de mamar na mãe, passam a mamar no pai
Ditado cuja forma não está fixada, mas cujo fundo e expressões principais não variam. Compare-se ao italiano: "I figliuoli succhiano la madre quando sono piccoli, e il padre quando sono grandi". Em todo caso, a importação não é recente, como não é a de nenhum dos outros citados.

Parentes são os dentes
Usadíssimo na roça, para denotar a inutilidade das relações como parentes. Mas por que "os dentes" é que são os verdadeiros parentes, como parece querer dizer o rifão? O caso exigiria exegese mais demorada.

Encontra-se em italiano coisa semelhante: "É piú vicino il dente che il parente" (Está mais perto o dente do que o parente). Não esclarece grande coisa. Entre nós, há a superstição de que sonhar com perda de dentes é anúncio de morte na família. E, em italiano, um outro ditado assim reza: "Doglia di parente – doglia di dente".

Praga de urubu não mata cavalo gordo
Registamo-lo já entre os usuais em São Paulo, com a única diferença do adjetivo magro, em vez de gordo. Aliás, conhecemos também esta variante, e até nos parece que ambas as formas são empregadas, assim como se emprega igualmente o ditdo sem adjetivo nenhum.

Urubu quando está caipora, nem galho de peroba escora
Já ficou registado o anexim nordestino, colhido por Leonardo Mota, e não de todo desconhecido em São Paulo: "Urubu quando está caipora, até o de baixo … no de cima". Este de Minas é uma espécie de variante do mesmo tema do caiporismo encarnado no urubu. Afrânio Peixoto, no trabalho citado, enumeraa diversas outras.

Por que a insistência em pôr esse bicho em tantos dizeres populares? Reminiscências da fábula da raposa e o "corvo" (nome que por aqui se dá também ao urubu)? Ecos de alguma das nossas histórias populares de animais?

Ocorre-nos um outro dito brasileiro, em que a mesma ave serve de comparação: "Passo de urubu malandro". Já ficou mencionada aquela frase-feita do Nordeste: "Andar escovando urubu". E é possível que não esteja encerrada a série.

 

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• Pôr o chapéu em cima da cama, traz azar.
• Não se deve pregar novamente um botão que cai de qualquer peça do vestuário, porque dá azar.
• Quando se empresta um canivete deve-se devolvê-lo aberto para não haver briga.
• Fazer a barba depois da comida produz congestão.
• Quem quiser que lhe cresça logo a barba deve passar titica de galinha no rosto.
• Presente de lenço desfaz as amizades.
• Marcado o dia do casamento não devem os noivos comer mais qualquer coisa na própria panela em que o perisco foi feito, a fim de que não chova no dia do enlace.
• Quem quiser que lhe cresça logo a barba, deve passar titica de galinha no rosto.
• Cortar as unhas às segundas-feiras livra de dor de dentes. Às sextas-feiras evita nevralgias, mas dá espigas, unheiros.

Veja também:
- Modas de viola recolhidas por Amadeu Amaral.

Cornélio Pires bordou um dos seus engraçados contos de caipiras em torno do seguinte assunto, em resumo:

Um roceiro vem à São Paulo e cai nas garras de um espertalhão da pior espécie. Este leva-o um dia a jantar num restaurante, onde comem à tripa forra; no fim, pretextando qualquer coisa, retira-se, deixando o caipira à sua espera. Depois de muito tempo, como o homem não volta e como lhe exigem o pagamento, o roceiro resolve explicar-se com o gerente, declarando que fora convidado e que estava desprevenido; mas o gerente não quer saber de nada, e impõe-lhe este dilema: ou paga, ou não sai. O desventurado, dá largas à sua indignação contra o patife que o pôs naqueles assados, e, matutando, parolando, acaba por afirmar que dará com o tal ali dentro, sem a maior demora, por meio de uma mandinga que ele conhece. Pede uma agulha e um bom pedaço de linha. Dão-lha. Dirige-se então à porta da rua, espeta a agulha na porta com a linha enfiada e presa por um nó, pega na linha e vai-se afastando a pouco e pouco, a esticá-la à medida que corre os dedos por ela, tudo isso debaixo de um ar de concentração e mistério. Afinal, chegando a extremidade da linha, que teve o cuidado de puxar para o lado da rua, dá um salto para fora e diz adeus ao pessoal do restaurante.

O tema deste caso pertence à tradição popular. Recordo-me bem de já ter encontrado há muito numa historieta carioca, na qual, como sempre acontece com esse gênero de narrativas, o papel principal era atribuído a um indivíduo conhecido. Encontra-se também num dos contos colhidos por Teófilo Braga, em cuja coleção figura sob o título – O jogo do Pira.

Um estudante queria comer sem pagar, e andando uma vez à tuna foi parar à casa de uma estalajadeira onde pediu tudo o que lhe apeteceu. Depois de bem comido, tratou de se safar, e propôs a estalajadeira que lhe ensinaria um jogo novo muito bonito.

- Então como é o jogo?

Disse–lhe o estudante:

- Segure neste novelo e deixe–me a ponta da linha porque é o jogo do Pira. Ora, veja como é que se joga.

Ele começou a puxar a linha. Andando de costas para a porta e a dizer: Pira, pira, pira. Foi saindo, e, assim que se apanhou na rua, bota a correr dizendo: Pira por aqui abaixo. E ninguém mais apanhou.

Em nota, Teófilo Braga regista que o essencial do caso foi posto pelo celebre Giordano Bruno, em sua comédia II Candelaio onde o estratagema usado pelo francês constituiu em apostar uma corrida.

Não será desinteressante recordar, embora sem tentar aqui aproximação alguma, que, entre as frases da linguagem calaceira do Rio de Janeiro é muito comum ouvir esta: "Então como é o jogo?", exatamente igual à do conto do português, sendo notório que muitas de tais frases feitas representam em toda a parte, restos de contos esquecidos.

O vocábulo pira, que não se sabe o que significa em si, e provavelmente nada significa, é frequente em Portugal, nas frases: "pôr-se na pira", "fugir, pôr-se ao fresco, dar as de Vila Diogo, e "andar na pira", estar sem vintém, não ter onde cair morto.

Também se diz por lá pireza em lugar de pira.

Como simples apontamento, e sem entrar no cipoal das etimologias, registe-se ainda:

Alberto Bessa, no seu livro Gíria portuguesa dá mais as seguintes formas : piro, o mesmo que pireza; pirandó, idem, pirar, fugir, piranga, falto de meios, miserável; pirangar, andar a pedir, pirangueiro, pedinchão. E mais: caipira, vadio, malandro.

Este último termo foi usado em Portugal como designação depreciativa de certo partido político, no tempo das lutas constitucionais. Encontra-se em Camilo, Brasilesia de Prazíus. O álbum de cantos populares de Carlos das Neves traz uma canção satírica desse tempo, intitulada Os caipiras.

É evidente a importação brasileira em mais de um daqueles vocábulos da gíria portuguesa.

O passarinho preso

Malasartes ia uma vez por uma estrada e sentiu uma necessidade comum. Satisfê-la e, vendo que vinha a certa distância um cavaleiro, colocou o chapéu emc ima e ficou abaixado a apertar-lhe as abas contra o chão. Chega o cavaleiro e pergunta-lhe o que faz. Responde Malasartes que tem ali preso um passarinho raro, de grande valor, e pede-lhe que o fique guardando enquanto ele dá um pulo até casa, em busca de uma gaiola. Para ir mais depressa, pede-lhe também que empreste o cavalo por um momento. O homem concordou e Malasartes correu a espora no matungo, sumindo-se. No fim de muito tempo, cansado da espera, o homem resolve-se a pegar o passarinho e caminhar. Levanta cuidadosamente o chapéu, de uma banda, e enfia a mão para agarrar o pássaro…

Plano para a coleta e catalogação
de materiais folclóricos

Elaborado por Amadeu Amaral em Tradições Populares.
I. POESIA, MÚSICA E DANÇA

1. Recitativo. (Certas peças em versos, destituídas de intenção poética, como as fórmulas mnemónicas, esconjuros, orações, etc.., embora podendo interessar a um estudo aprofundado da poesia popular, devem ser remetidas a outras seções).

2. Canto em ação (o que se usa durante certos atos individuais ou coletivos, formando indissoluvelmente corpo com esses):

a) Cantigas de berço.
b) Cantigas rituais (folias do Divino, lavagem de São João, etc.)
c) Cantigas cerimoniais (como as de banquete, as de casamentos, as de louvor e outras, contendo geralmente alusões as pessoas, coisas e atos presentes).

3. Canto-Dança (Danças religiosas, danças profanas, rondas infantis)

4. Canto Autônomo (o que se manisfesta independentemente de quaisquer práticas ou cerimonias especiais).

II. NARRAÇÕES 

1. Contadas como verdadeiras (Lendas):

a) de protagonistas divinos ou divinizados;
b) sobre almas penadas, espíritos, seres fantásticos;
c) sobre animais, plantas, coisas inanimadas, acidentes geográficos, etc.
d) de protagonistas humanos;
e) sobre povos, raças e acontecimentos históricos.

2. Contadas por mero prazer:

a) maravilhosas (histórias de fadas, de personagens anormais, etc);
b) anedóticas (contos escatológicos, historietas de bicho, historietas humorísticas relativas à religião e ao além, casos ridículos, histórias de caçadores, de mentirosos, de tipos engraçados, etc.);
c) mnemônicas (compostas como para exercício de memória) e outras.

3. Anexos

a) burlas de Contadores (histórias que ficam em suspenso, casos que se repetem indefinidamente, contos-armadilhas, etc);
b) fórmulas iniciais e finais de contos, fórmulas de transição;
c) crendices e práticas de contadores (exemplos: não contar durante o dia, horas e lugares preferidos, eufemismos para evitar a pronúncia de certos nomes).

III. LINGUAGEM POPULAR 

1. Ditados e provérbios

2. Frases feitas (chover no molhado, cair no laço, etc.)

3. Modismos (locais e regionais)

4. Motejos (alusivos a nacionalidades, raças e profissões, etc.)

5. Arremessilhos (ex.: A como vende a farinha? Olha o rabicho!)

6. Réplicas ("Nada" é peixe. – Que é isso? É chouriço. – Dobre a lingua, etc.)

7. Comentários sintéticos (Ora, veja! – Esta é de gloriosa – Faça cócega)

8. Nomes:

a) alcunhas de povoados e habitantes;
b) nomes de lugares e acidentes geográficos;
c) nomes e alcunhas de pessoas e famílias;
d) nomes próprios de animais;
e) nomes próprios de coisas;
f) nomes especiais de seres animados e inanimados (gato=Romão; cacete=São Benedito).

9. Símbolos (marcas de propriedades, de fabrico, de posse, sinais de perigo, significados de flores, etc.)

10. Mímica (movimentos expressivos)

11. Linguagem criptológica (de corporações, de grupos, etc.)

12. Travalínguas (frases de pronunciação difícil)

13. Adivinhas (e outros problemas)

14. Perguntas – Armadilhas

15. Fórmulas imitativas e interprativas (de pregões, frase latinas, vozes de animais, dobres de sinos, etc.)

IV. TÉCNICAS E ARTES 

1.  Construção (habitações e mais dependências, capelas, embarcações, carros, moinhos e monjolos)

2. Artefatos (tecidos, chápeus, calçados, arreios, cerâmica, rendas e bordados, instrumentos e aparelhos de caça, jóias, etc.)

3. Desenho, Pintura e Escultura

V. A CASA E A INDUMENTÁRIA

1. A casa: móveis, utensílios, adornos, o jardim, a horta, o pomar, a criação miúda, os brinquedos.

2. Indumentária: trajes característicos de regiões e de classes, apetrechos de vestuário, objetos ligados ao vestuário.

VI. ATOS COLETIVOS

1. Trabalhos (costumes relativos ao...)

2. Cerimônias de passagem (batismo, casamento, enterro, visitas, etc.)

3. Festas calendárias

4. Responsos, novenas, romarias (aspectos profanos e sociais.)

5. Jogos (de dados e cartas, esportivos, carreiras, etc.)

6. Caçadas e pescarias

VII. ALIMENTAÇÃO E BEBIDAS

VIII. CRENÇAS E OBSERVÂNCIAS

1. Religião

a) práticas relativas aos dogmas e preceitos da igreja;
b) devoções especiais (Virgem Maria, Santa Cruz, os santos, os anjos);
c) promessas, ex-votos, milagres;
d) igrejas, capelas, oratórios, cruzeiros, imagens;
e) orações especiais, breves, patuá, verônicas;
f) o inferno e o diabo

2. Mitos

3. Magia e feitiçaria

4. Aparições e outras manifestações maravilhosas (trasgos, duendes, animais fantásticos, assombrações, etc.)

5. Superstições (coisas funestas, coisas propícias, amuletos, palavras e sinais cabalísticos, etc.)

IX. DIREITO POPULAR

(Normas e sanções estabelecidas pelos costumes para regular diversas relações da vida social. Exemplos: Praxes referentes ao uso de caminhos e águas, cerimônias para fechamento de negócios, regras para prevenir ou resolver questões em caçadas, pescarias, jogos, carreiras, etc.)

X. SABER POPULAR

1. Medicina e Veterinária (matéria médica, remédios e aparelhos, magia preventiva e curativa, benzeduras, explicação e nomes de moléstias, etc.)

2. Agricultura e criação

3. Astronomia e Meteorologia (idéias sobre os astros, os cometas, o bom e o mau tempo, o arco-íris, as estrelas cadentes, etc.)

4. Zoologia (idéias sobre a geração e a vida dos animais, sobre as formas, os costumes, os instintos sobre a origem de certas especies, nomenclatura, etc.)

5. Botânica (mutatis mutandis, os mesmos exemplos que para os animais)

6. Geologia e Mineralogia (idéias sobre os metais, as pedras, as terras, as águas, as montanhas, as minas, etc.)

XI. ESCRITOS

1. Literatura de cordel

2. Folhas impressas

3. Manuscritos

4. Inscrições

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