![]() Inigualável a sua |
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| Conheci Amadeu Amaral, logo depois da gripe, em 1918. Eu trabalhava na revisão de
O Jornal do Comércio, à rua Direita. De madrugada, alta madrugada, saía exausto
daquele trabalho horroroso de horas e horas, numa sala sem janelas, ao fundo da redação,
instalada num prédio velho e sujo, cujo ar se saturava do cheiro que vinha de uma
privada, ao fundo, esta também sem a menor ventilação e sempre num estado de desasseio
que nem é bom falar. E íamos, revisores e conferentes, comer qualquer coisa no Café
Acadêmico, nos quatro cantos, isto é, rua Direita, esquina de São Bento (a praça do
Patriarca não existia). Éramos sempre unstrês ou quatro companheiros, e nosse
refeição resumia-se no que permitia o miserável salário de cinco mil réis por noite
de trabalho. Quase todas as madrugadas, nós já aboletados numa mesinha, entrava no
café, vindo da rua de São Bento, em direção da praça Antônio Prado, um vulto alto,
escanhoado, elegante, debaixo de um chapelão velho e dentro de uma roupa mais ou menos
descuidada. Não se sentava a nenhuma mesa, ia diretamente ao balcão, pedia qualquer
coisa, café ou cerveja preta, engulia aquilo rapidamente e saía em direção ao viaduto
do Chá. Um dia perguntei a um dos meus companheiros: - Quem é este sujeito? - Não conheces? É o Amadeu Amaral, secretário do Estado. Amadeu Amaral! Um nome quase familiar para mim. Fora amigo íntimo de meu pai quando ambos freqüentavam o Curso Anexo, o Curral, ali no velho casarão do largo de São Francisco. Conheceram-se muito antes disso, e fora meu pai quem o animara a entrar para a Faculdade de Direito, quando ambos trabalhavam como caixeirinhos, Amadeu em Lion & C. e meu pai na Casa Genin. Entraram juntos para o Curso Anexo que ambos abandonaram depois. Pouco mais tarde, já casado, meu pai mudava-se para Franca, a sua cidade natal, deixando aqui Amadeu. Isso em 1900, exatamente quando este trabalhava já no Correio Paulistano, publicava Urzes no ano anterior e eu contava cinco ou seis meses de idade. Então, um desapareceu da vida do outro. Em 1912, voltava meu pai a residir em São Paulo e aí o nome de Amadeu brilhava entre os intelectuais da época e, em nossa casa, muitas vezes, meu pai falava na velha amizade que os unira. Eram quatro nomes sempre citados como os velhos amigos de meu pai: Alarico Silveira, Alexandre Vilela de Andrade, Paulo Saldanha da Gama (razão por que me chamo Paulo e Amadeu. Mas entre 1912 e 1917, em que ambos residiam de novo em São Paulo, creio que não se encontraram muitas vezes. Pois nessa madrugada de fins de 1918, ao ligar pela primeira vez um nome familiar em minha casa àquele vulto que já conhecia de vista, em suas passagens ariscas pelo café, para sair logo, mergulhando-se na garoa da noite paulista, não me contive. Despedi-me dos companheiros e saí atrás de Amadeu. Este ia longe, no meio do viaduto do Chá. Custou-me divisar o seu vulto esguio dentro da noite e só o alcancei na rua Xavier de Toledo. Ante o ruído dos meus passos rápidos ele, como adivinhando minhas intenções, voltou-se e parou: - Vai subir também? - Vou - Então vamos juntos. Estabelecera-se o primeiro contato. Fui logo contando quem eu era. Amadeu parou surpreendido: - Mas eu vi você pequenino! E fomos rua da Consolação acima, conversando sobre meu pai a vida que viveram juntos, no fim do século e, agora, a distância de anos, que os separava. ( ) No mesmo dia em que me aproximei de Amadeu, começou a nossa convivência de todas as noites. Eu esperava-o no Café Acadêmico ou ele aí me esperava para subirmos a rua da Consolação, juntos. Na rua Antônia de Queiroz, em geral, eu o deixava à esquina, seguindo um para a esquerda e outro para a direita daquela rua. Ele em busca de sua casa, um pouco adiante, e eu em direção da rua Augusta, pela qual ganhava Peixoto Gomide e a rua Barata Ribeiro. E nunca mais o caminha da várzea da Saracura me viu Amadeu, um dia, declarou que estava fazendo tudo para me pôr na redação do Estado, que era o sonho dos meus dezoito anos. Antes disso, fui demitido do Jornal do Comércio, por uma desinteligência com o diretor. Graças a Amadeu e a Antoninho de Figueiredo, a quem me recomendara Mário Reys, chefe da revisão do Jornal do Comércio, revoltado com a minha injusta despedida, arranjei um lugar na revisão do Estado, que funcionava nas oficinas do jornal, à rua 25 de Março. Aí, comecei a encontrar-me com Amadeu, no próprio Estado, cuja redação ficava à praça Antônio Prado, para seguirmos o nosso caminho. Até que um dia, ele me passou para a redação. E começou a nossa convivência de todas as noites e de todos os dias. ( ) Às vezes íamos, só nós dois, comer qualquer coisa no Fernandes, da rua Santa Ifigênia, popularíssimo por um apelido que não se pode repetir por amor à decência, ou num dos restaurantes do largo Paissandu ou adjacências. E as palestras que fazíamos no caminho de casa, mercê das quais devo tudo o que sei de literatura, e que duravam freqüentemente até à manhã, desenvolviam-se à mesa dos restaurantes, eu, diante de uma caneca de vinho português ou de um copo de vinho italiano, ele diante de uma pequena garrafa de uma cerveja escura chamada Pretinha, de que Amadeu gostava imensamente. Mesmo na redação, era freqüente ele pedir um sanduíche de queijo e uma daquelas garrafinhas de cerveja. O que dava ao velho Brasílio, contínuo da noite, a oportunidade da piada, sempre a mesma, quando telefonava ao Café Paulista, em frente, na praça Antônio Prado, fazendo a encomenda da pequena refeição: - É do Café Paulista? Então faça o favor de mandar já, aqui na redação do Estado, um sanduíche de queijo e uma pretinha bem fresca, para o seu Amadeu Um dia, Amadeu, entrando, de sopetão, na sala do centro, onde se achava o telefone e onde eu trabalhava na companhia de Olival Costa, Pedro Cunha, Vital Ribeiro e onde o velho Skerry freqüentemente dormia algumas horas sentado numa cadeira, depois de redigida a seção do câmbio, ouviu o recado do velho Brasílio - Ora, essa! foi a exclamação, num meio sorriso, exclamação que era o seu comentário para todos os fatos inesperados. |
Nessa época, convivíamos dia e noite. Unia-nos a minha sede de
literatura que ele satisfazia com livros e as nossas longas prosas; unia-nos o nosso
folclore e até a política. Porque, no fundo ele amava a política. Não como o comum dos
nossos políticos, para dela tirar tudo, mesmo à custa do próprio decoro. Mas para tudo
dar-lhe, no sentido de enobrecê-la com as iniciativas culturais e outras grandes
realizações e dignificá-la com o exemplo de sua linha impecável. Foi por isso que
principiou a lutar na campanha do voto secreto e depois entrou para a Maçonaria, em 1920
ou 1921, para onde me levou também. Juntos, fizemos parte da loja União Paulista,
instalada numa espécie de capelinha que não mais existe, misteriosa para todos que
passassem ali pela rua Xavier de Toledo, quase em frente ao obelisco do Piques. Foi com o
mesmo ânimo de luta a favor da regeneração dos nossos costumes políticos, baixados ao
nível mais inferior pela fraude e pela desordem administrativa, que, em 1921, disputou
uma cadeira de deputado e entrou para o Partido Democrático, em 1927; e ainda não
hesitou quando, no mesmo ano, eu fui fazer-lhe o convite para o cargo de diretor do
Diário Nacional, órgão oficial do Partido, onde juntos trabalhamos e de onde juntos
saímos, poucos meses depois. Amadeu era um homem profundamente sereno. Alto, magro mas espadaudo, cabelo e pele claros, herança da mãe, muito loura, descendente talvez de holandeses, denunciava a sua serenidade até no andar. Olhos azuis, garços, muito grandes, davam a impressão de estar olhando ao longe, mesmo quando fitava alguém. Sua voz era um pouco rouca, sempre baixa e muito calma, e tomava uma grande expressividade quando conversava, falava em público ou lia versos ou prosa em voz alta, o que gostava muito de fazer. Até fins de 1917 ou 1818, usava grandes bigodes, como era moda, trambolho de que se libertou, dando ao rosto a sua verdadeira expressão de tristeza tranqüila. Era proverbial a sua bondade. Não há quem se lembre de haver ele levantado a voz a quem quer que fosse. Nunca falava dos seus desafetos, todos gratuitos, a não ser para ressaltar um traço positivo. Mesmo dos mais rancorosos que os teve inexplicavelmente, ódios que eram sobretudo o reflexo da sua posição em O Estado de São Paulo, e por motivos políticos de que Amadeu foi sempre absolutamente estranho. Os seus escritos, em prosa ou em verso, ressaltam esse amor pelos homens, pelos animais e pelas coisas, que se estendia até às árvores e às pedras da rua. A propósito desse seu traço que, desde época de que já não me lembro, me impressionou profundamente na personalidade de Amadeu, certa vez, uns versos de José Lannes me inspiraram manifestação semelhante, perpetrada pelos mesmos métodos metrificados. Nessa brincadeira poética, sem o querer, tracei com fidelidade uma das faces do caráter de Amadeu, a mais bela talvez. Achavamo-nos num almoço, ao qual comparecera também Alarico Silveira, então secretário do Interior e o poeta José Lannes, que era seu oficial de gabinete. Amadeu encontrava-se presente, sentado ao lado de Alarico Silveira, seu íntimo amigo. Nós, jornalistas e oficiais de gabinete, comíamos numa segunda classe de ponta da mesa. Nessa época, o nosso passatempo nessas reuniões cacetíssimas, aonde íamos por dever de ofício, era traçar perfis ou epitáfios em verso das pessoas presentes. De repente, José Lannes passa um cardápio, nas costas do qual vinha um instantâneo de Amadeu: Ah! Quanto leite reclama O teu nome original Não podes passar sem ama O nome que Deus te deu Tem uma ama no Amadeu E outra ama no Amaral Achei que o leite não bastava para definir a suavidade pura de Amadeu, principalmente o leite de São Paulo. Vai daí, rabisquei por baixo: Inigualável a sua Capacidade de amor! Ele ama seja o que for Ama as árvores da rua Ama este mundo e o da lua Ama, de amor sempre igual A pedra, a planta, o animal Ele ama a prosa e a poesia Mas que é que não amaria Sendo Ama deu Ama ral? Crio que foi o meu único golpe de felicidade em poesia metrificada. Refiro-me ao fundo e não à forma. Porque realmente esta pequena palavra amor definia Amadeu Amaral. Ele viveu para amar. A sua obra acha-se impregnada desse sentimento a derramar-se pela natureza, sobretudo, pelo semelhante. O que menos custava a Amadeu era a palavra boa em resposta ao apodo, ou o sacrifício por amor do próximo. Às vezes suas simpatias concentravam-se num quadro, numa coisa, numa entidade, como São Pedro, que ele, embora agnóstico, cercava de uma simpatia toda especial. Em sua casa, alguém, um dia, disse, caçoando, que São Pedro era o padroeiro dos usurários. Ao que volve Amadeu indignado, para ralhar: - Ora essa! um sujeito tão bom e vocês o caluniando! Incréu, embora, era ele quem escrevia com mais assiduidade crônicas obre santos, comemorando no Estado certas datas, como São João, Santo Antônio, Natal, Ano Bom. Porque nesses santos e nessas datas ressaltava-se o traço da bondade, o ponto de contato com o seu feitio, e, ignorando-o, ele mesmo não podia explicar a sua simpatia para com vários carregadores de amor e de humildade, como São Pedro, Santo Antônio, São Francisco de Assis, e outros amigos íntimos de Amadeu. Era desses incapazes de atirar fora um sapato usado, um chapéu velho, um objeto qualquer, sem dirigir-lhe um olhar de agradecimento pelos serviços prestados. Lâmpada Antiga é catecismod e bondade. Os seres, - a família, os amigos, o próximo, os indiferentes, a humanidade e as coisas; a humildade, a paciência, o trabalho, a dor, a terra, as flores e os espinhos, até uma velha cisterna abandonada envolve-os tudo e todos de uma mesma névoa de amor, pois, segundo ele, "só pelo amor a triste humanidade (se algum dia terá de se remir) redimida será". Não ignorava, entretanto, que esse dia estava muito longe. Porque, para ele ainda, esse amor só viria "quando o homem aprendesse que as torturas que o consomem só dele vêm, só ele as deterá". Tinha fé, entretanto, em que havia de raiar essa madrugada, "embora a treva sempre se adensando vá". Sabia que não era para ele, mas isso não importava porque quem sabe verdadeiramente amar não é egoísta. Muito menos Amadeu, em cujo espírito jamais o rancor ou o simples ressentimento pôde medrar. Apenas, para defender-se, ele se armava daquele "nojo resignado" que a necessidade impõe no ânimo dos homens bons para poder atravessar os enxurros da existência e a aspereza do contato com os outros homens. (DUARTE, Paulo. In AMARAL, Amadeu. Tradições Populares) |
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