Jangada Brasil, nº 20, abril de 2000: Almanaque – 2/4


1875-1929

TRÊS DEPOIMENTOS SOBRE AMADEU AMARAL
Concedidos em entrevistas a José Benedito Silveira Peixoto,
e reproduzidas no livro Falam os Escritores.

Máximo de Moura SantosMáximo de Moura Santos recebe-me em sua sala de chefe dos serviços de Instituições Auxiliares da Escola, do Departamento de Educação de São Paulo. Olha-me com aqueles olhos marotos, que vivem a sorrir de tudo e de todos, por trás dos óculos enormes. Sorri… aquele sorriso eternamente irônico – irônico até quando ele não quer fazer ironia…

Oferece-me uma cadeira, encomenda ao contínuo umas xícaras de café. Digo-lhe que quero o seu depoimento sobre Amadeu Amaral, de quem Máximo foi companheiro, na direção de um ginásio. Tenho a impressão de que ele remexe os escaninhos de seu cérebro para apanhar uma lembrança aqui, outra acolá…

Começa, agora, a falar:

– Em 1927 ou 1928, não me recordo muito ao certo, eu e o Sud Menucci organizamos o Ginásio Moura Santos…

– Já sei, Máximo…

– Não pense que é cabotinismo, o prólogo, no caso, é indispensável. Pois, um dia, Sud me chamou a parte e disse: “temos de arranjar uma cadeira para um grande amigo meu que, no momento, esta precisando…” Não deixei que ele concluísse a frase, para objetar-lhe: “Mas, Sud, você sabe que não há vagas e que há meia centena de pedidos a atender…” “Eu sei, eu sei!…- redargiu Sud. Mas, trata-se de Amadeu Amaral, e é preciso dar um jeito…” “Amadeu Amaral! Da Academia?! Mas, isso é diferente e você devia ter dito logo!…” – aquiesci, num alvoroço. – E Amadeu passou a fazer parte do corpo docente…

– Claríssimo! A perspectiva de ter um membro da Academia Brasileira de Letras como professor do meu ginásio seduziu-me e falou à vaidade. Mas, não tardou, a consciência veio segredar–me que aquilo não estava direito. Fui, então procurar o Sud, para dizer-lhe: “Não podemos ter aqui o Amadeu, como simples professor, embora isso lhe convenha. Em todo caso…” meio desconcentrado, meio surpreso, meio agoniado, Sud repetiu: “Em todo caso?…” Eu concluí o pensamento: “Se ele fizer parte da direção, já não lhe ficaria mal reger uma cadeira e não nos deixará constrangidos…

– Daí, então?

– Amadeu passou a ser o mais ilustre dos diretores de meu ginásio e a reger uma das cadeiras de português.

Máximo enche, ele mesmo, as xícaras de café. Passa-me uma. E enquanto bebericamos uns goles da rubiácea, pergunto-lhe:

– Amadeu, como professor?…

Ele atalha-me a frase, para dizer-me entre risonho e brincalhão:

– Foi um desastre…

-Um desastre?!

– Sim, um desastre completo. Sua conversa prendia a rapaziada e, de vez em quando, ele dizia as verdades sobre as gramáticas e os gramáticos. Suas aulas eram, por isso mesmo, as mais freqüentadas. Mas, a matéria prosaica de exames, a análise trivial, enfim, o ramerrão dos programas – nada!… e como exames, com as famigeradas bancas, esse ramerrão é que decide, eu vivia preocupado e a resmungar ao Sud: “Você precisa falar com Amadeu. A prosa dele segura a meninada; mas, no fim do ano, tudo vai levar ao diabo… Você precisa conversar com ele, porque eu não me atrevo…”

– Mais uma xícara de café, pois que o contínuo da repartição que o Máximo chefia é perito em fazer a infusão – e o autor de O professor Policarpo continua:

– Conosco, Amadeu era o tipo de filósofo. Filósofo, no sentido mais alto da palavra. Não o filósofo da esquina, a deitar sabedoria sã e malsã em cima do próximo. Não o filósofo portador de um “canudo”, no qual está escrito que o tipo de é filósofo, porque assim resolveu a congregação de uma faculdade de autofilósofos. Amadeu era filósofo, no que esse vocábulo significa de mais elevado e de mais sublime.

Profundamente, superior, calmo, sereno, tolerante, para com os outros, reunia, em si, a mais completa e a mais bela organização moral que já conheci.

Faz uma pausa, e recorda:

– Sua conversação empolgava. Lembro-me de que, uma vez, três horas depois que terminava um jantar que oferecemos a uns oficiais do Exército ainda estávamos todos á mesa inteiramente presos á sua palavra!

Máximo oferece-me um cigarro. Uma névoa azulada está desenhando arabescos no ar.

– Eu e Sud – prossegue ele – quisemos certa ocasião, prestar uma homenagem ao presidente Júlio Prestes, cuja candidatura à presidência da República tinha, em nós, dois adeptos entusiastas. Mas, Amadeu era adversário – adversário leal e elegante- do candidato paulista… Como não desejássemos magoá-lo, fomos consultá-lo. E ele propôs, imediatamente, a solução: Está bem. Vou passar uns dias em Santos. Vocês fazem a festa. Eu não concordo e nem discordo. E não é por isso que as cotovias irão deixar de cantar… Aliás, Júlio, no fundo, é bom homem…

Após a reticência, após outra baforada de cigarro, Máximo acrescenta:

– Amadeu era assim, homem de atitudes inesperadas, porque demasiadamente elegantes para a época em que vivemos.

Uma pausa, e ele continua:

– Um dia, Amadeu foi convidado a assumir a chefia da redação do Diário da Noite, daqui de São Paulo. Isso representava para ele, a solução do seu problema financeiro. Ao contar-nos, a mim e ao Sud, que recebera esse convite, ajuntou, meio constrangido que iria lutar com dificuldades, para dar as aulas… E concluiu, olhando-nos muito, com aqueles seu olhos muito sereno: “Mas, vocês me prestaram um bom serviço e se quiserem continuarei a dar aulas. Quanto ao meu nome, na direção, podem continuar a usá-lo…”

– E então?

– Tivemos de dispensá-lo do sacrifício das aulas. Amadeu voltou para o jornalismo que ele tanto e tanto dignificou. Nós em breve, tivemos dificuldades outras, que nos levaram a fechar o ginásio.

– E com a voz emocionada, é comovidamente, que Máximo de Moura Santos evoca:

– Um dia – que dia triste, aquele! – fui ao enterro de Amadeu. Ao acompanhá-lo ao cemitério, tinha a certeza de estar acompanhando o corpo de alguém que o destino fez meu amigo, e que, no correr dos anos, terá seu nome cada vez mais lembrado, como um dos vultos maiores da intelectualidade e nossa terra. Tinha certeza que acompanhava o corpo de alguém que soube ser bom – daquele homem que sempre fazia suas as palavras do pensador, nunca esquecendo de repetir que “a vida é curta e não vale a pena ter ódios”.

 

Monteiro Lobato

Dou com Monteiro Lobato em seu escritório, a dois passos do largo da Sé. Recebe-me com aquele sorriso muito seu – um sorriso meio moleque, em que o canto direito dos lábios fica um pouco mais repuxado para cima, do que o esquerdo.

– Você está querendo uma entrevista? – Pergunta, quando lhe aperto a mão.

– Como você adivinhou?

– Pelo jeito… Você tem um jeito diferente, quando está querendo pescar uma entrevista…

– É sobre Amadeu Amaral.

– Sobre o Amadeu…

Lobato faz um rodeio em suas recordações. Numa evocação, murmura, em palavras cheias de saudades:

– Amadeu!… Conheci-o muito pouco, Peixoto. A primeira vez que vi o seu nome… Foi num concurso de contos, aberto pela revista Arcádia Acadêmica e do qual era ele um dos julgadores e o redator do laudo…

Prolonga um tanto a reticência. Depois, ajunta:

– Deram-me o primeiro prêmio, por uma coisa intitulada Gens ennuyeuses, mas com essa ressalva: “apesar do título”… devo, pois, a Amadeu, a lição de que Gens é a palavra masculina. Lembro-me de que, então, perguntei a Ricardo Gonçalves: “Quem é este Amadeu?” E foi deste inesquecível companheiro que ouvi o primeiro louvor a um homem que, além do talento literário, possuía uma coisa bem pouco vulgar: absoluta inteireza de caráter.

– Depois disso?

– Muitos anos depois, vim a conhecê-lo, já redator de O Estado de São Paulo. Com um pouco mais de intimidade, freqüentei-o, no Rio, quando, em conseqüência de seu ingresso na Academia, para lá se mudou.

– Ele?

É com entusiasmo que Lobato responde:

– Era um tipo de exceção, que destoava, clamorosamente, no irreverentíssimo clã da inteligência. Levava tudo a sério, nada dizia por amor, ao efeito momentâneo. Falar, para Amadeu, era o meio de lealmente expôr o que ele pensava e sentia. Grave, circunspecto, melancólico, resignado, e sempre com a vida aperreada… Porque “não sabia subir”… Amadeu tinha repulsa orgânica pela prostituição do “subir”. Alma sensitiva demais!

Faz uma pausa. Marcando bem a sílabas, disse:

– Cérebro de “pensador poético”. Seus versos perfeitos foram, sempre o doloroso exutório de sua filosofia. Fisicamente belo mas sem dar impressão de que sabia disso. Aqui em São Paulo, Amadeu marcou época. Fez-se um ponto de referência da sociedade, um desses homens com que, em qualquer setor, a sociedade pode contar. Sua austeridade sem exageros, orgânica, impunha-o. Os inimigos podiam negar-lhe tudo, menos a mais nobre e perfeita verticalidade.

A voz de Lobato ganha uma tonalidade diferente, uma tonalidade que é toda emoção, para falar-me:

– Sud Menucci escreveu: Santo Amadeu. E Amadeu era isso: um santo moderno! Quando olho para o passado e relembro as figuras de meu caminho, Amadeu avulta, como um ser a parte, que me bole na coroa do respeito venerativo. Os outros formam um grande grupo. Mas Amadeu está de lado. Está só! E uma palavra arcaica, morta, extinta, ridícula, proscrita, levanta-se da tumba do esquecimento, como um fantasma: VIRTUDE!

Rubens do AmaralRubens do Amaral, esse meu querido mestre de jornalismo, primo de Amadeu Amaral, está em seu gabinete de redator chefe das Folhas. A madeixa rebelde de cabelos já meio grisalhos insiste em cair-lhe sobre a testa ampla e intelectual. Seus dedos estão tamborilando o teclado da máquina de escrever…

Logo à minha entrada, Rubens interrompe o trabalho e volta-se pra mim.

– Você está querendo alguma coisa? – Indaga.

– Espero…

As teclas continuam metralhando o papel e, em mais alguns minutos, o comentário está pronto.

– Que é que você quer? – Indaga Rubens, outra vez.

– Alguns dados para a entrevista…

– Uma entrevista?!

– Isso mesmo. É sobre o Amadeu…

– Ah, bem! Mas, que é que vou dizer?… Há tanta coisa!

– Alguns episódios da intimidade… Coisa que focalize bem alguns aspectos da personalidade de Amadeu.

Medindo a sala com alguns passos, começa Rubens a narrar-me:

– Uma vez, Amadeu conseguiu reunir uns cobres. Surgiu, então, a idéia de adquirir uma casa – o que foi feito. Mas, o poeta preferiu residir em outra e alugar o que tinha adquirido. Interveio, aí, o comerciante da família, Tiago Masagão, cunhado de Amadeu. Obteve a necessária procuração, encontrou o desejado inquilino. Exigiu contrato, exigiu fiador… Mas…

– Mas?…

– Os tempos passaram-se. A certa altura, o inquilino estava com três meses de atraso. Tiago Masagão soube que o locatário iria conversar com Amadeu… Viu o perigo pela frente. Se ele conseguisse falar com o poeta, iria tudo por água abaixo. E era preciso tomar cautela, pois que o fiador era abonado… Os parentes entraram em confabulações. Ficou acertado que se faria tudo, no sentido de impedir uma aproximação entre o inquilino e o escritor. Organizou um verdadeiro cerco… o locatário, no entanto, era desses homens que não conhecem obstáculos. Um dia, enfim, logrou falar com Amadeu.

– E aí?

– O homenzinho choramingou; descreveu, com tintas negras, a situação em que se encontrava, disse que estava sem trabalho e que a família se achava quase passando fome… Tanto falou, tanto chorou que acabou deixando Amadeu todo comovido.

– E o poeta?

– Com aquele jeitão que lhe era tão peculiar, virou-se para o inquilino, fitou-o muito e não se conteve: “Olhe, quer saber de uma coisa? Traga-me as chaves e não se lembre mais disso. Não precisar pagar o que me deve, não…”

Rubens faz uma pausa, tira o cigarro da carteira, diz que eu só fumo “se me dão” porque lhe filo um outro, e passa a relatar-me o que ele chama de “caso Collor”.

– Uma vez, eram candidatos a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, o senhor Lindolfo Collor e… Não sei bem o nome do outro candidato. Sei que era um sacerdote. Pois bem, à porta do Garnier, uma tarde, em meio à uma rodinha em que se falava de eleição, Amadeu, que nenhuma solicitação havia recebido, negou ao sacerdote o direito de entrar para o cenáculo e declarou que votaria o senhor Collor. Ao ter notícia de sufrágio assim tão espontâneo, em pleito tão disputado, o senhor Lindolfo Collor, cheio de contentamento, apressou-se em escrever a Amadeu uma carta amistosíssima de agradecimentos. Nela, prometendo um obséquio em retribuição ao obséquio já recebido, ofereceu-se o escritor gaúcho para obter para o amigo e votante um contrato de colaboração em La Prensa, de Buenos Aires.

– O Resultado?… – indago eu.

– Espere um pouco. Vamos por parte. Os tempos passaram-se. Amadeu votou no senhor Collor que foi derrotado, o senhor Collor nunca mais falou na tal colaboração, coisa que Amadeu jamais ousaria tocar.

– Depois?

– Abriu-se outra vaga na academia. O senhor Collor apresentou-se novamente, contra outro candidato de cujo nome não me recordo muito bem. Tratou, logo, de escrever a Amadeu, pedindo-lhe o voto… Acrescentou que o contrato de colaboração em La Prensa não demoraria…

– E Amadeu?

– A situação, como se vê, era outra. O oferecimento, então, vinha antes do voto dado, ao contrário do que acontecera de vez interior. Melindrado com isso, Amadeu não hesitou e respondeu ao senhor Collor que nele votara contra um certo candidato; desta vez, no entanto, votaria em prol do seu adversário. E acrescentou que, quanto à prometida colaboração, não tinha desejo algum de escrever para um jornal de Buenos Aires, recusando, assim, previamente, o convite a ser feito…

Rubens fica na reticência, limitando-se a sublinhá-la com um sorriso malicioso.

– A Academia Paulista de Letras – diz Rubens – era ainda nova, era ainda criança, e Amadeu dela fazia parte. Uma noite, estávamos à mesa de café – Amadeu, eu e mais dois ou três amigos.

– Quem eram?

– Não me lembro, ao certo. Mas , estariam nesta lista: Simões Pinto, Adalgiso Pereira, Francisco Escobar, Quinzinho Correia, Mariano de Oliveira. A dado momento, um deles exibiu um periódico literário, em que não sei que sujeita atacava a Academia e, para comprovar sua desvalia, citava Amadeu, perguntando, fulminantemente: “a que título figura o senhor Amadeu Amaral entre os “quarenta” paulistas?”

– E o poeta?

– Leu o ataque franziu as sobrancelhas cerradas e os seus olhos azuis chisparam revoltos. Ficamos todos constrangidos, em silêncio, ante a “gaffe” do amigo que trouxera o jornalzinho. Quem quebrou o silêncio foi Amadeu, depois de percorrer a todos nós com olhar agoniado e repassando de agonia a suas palavras: “Ora essa!” Passou-se um minuto, todos quietos, sem dizer palavras. E da boca saiu-lhe, outra vez , o protesto: “Ora essa!” Cada qual procurou encaminhar a conversa para outros assuntos. Mas, quando a palestra já havia tomado outros rumos, ouvimos, pela terceira vez, ainda mais fortes, as duas palavras: “Ora essa!!!”

Logo a seguir Rubens toma de novo a palavra:

– Depois de Urzes, Amadeu passou onze anos sem publicar outro volume. Mas, não deixará de trabalhar. Tinha, acumulado, material para um novo livro. Tudo guardado, ou disperso…

– Esse segundo livro?…

– Foi Simões Pinto quem o estimulou a publicá-lo. E não se limitou a isso, pois foi ele também que animou Amadeu a selecionar, em toda a sua obra, porções mais ou menos homogêneas, deixando de partes seus numerosos poemas, que haviam de sugerir, mais tarde, em espumas. Não exagero dizendo que Simões Pinto foi quem teve o maior encargo, nesse trabalho de classificação. Foi um livro dividido em sete partes, razão porque, de início, lhe foi dado o título de Hepitacórdio. Foi ainda ele, amigo dedicado de Amadeu, datilografou todas as poesias em laudas que, a seguir, encadernou e de que desenhou a capa.

– O título Névoa?

– Só mais tarde foi que se assentou esse título. Tudo pronto, um dia desapareceu o caderno, na redação do Comércio de São Paulo, que Amadeu dirigia e de que éramos redator – Simões Pinto e eu. Buscas, indagações – tudo inútil. Simões Pinto desesperava-se. Um dia, afinal…

– Encontrou seu caderno…

– Não, ainda. Um dia, Simões Pinto propôs a Amadeu refazerem os originais. “Sei quase todas as poesias de cor – disse ele. Você saberá as restantes. Em poucos dias tudo estará reconstituído” mas o poeta não acedeu ao pedido. Amuado com a perda dos originais, recusou-se a recompô-los. Se se perderam perdidos ficassem!… passados alguns meses, ao se proceder a uma limpeza na secretaria de Amadeu, encontrou-se o caderno, que havia caído atrás de uma gaveta e lá permanecera oculto. Foi assim que as letras brasileiras deixaram de perder a Névoa que tanta gente prefere as espumas.

Depois de atender a um telefonema, Rubens conta-me:

– Uma noite após o jantar, saía eu junto com o Amadeu, de sua residência, que era então de uma casa da rua Antônia de Queiróz. Já à porta, ouvimos ruídos insólitos. Lá dentro… era Amadeu Júnior, pequenote que fazia artes quaisquer bastante excessivas. Amadeu voltou, segurou o filho pelo braço e deu-lhe uma palmada, uma palmadinha de nada. Saímos. Ele, muito pálido, muito quieto… sentia a tortura íntima que o empolgava e não quis pertubá-la.

– Tudo por causa de uma palmadinha à toa…

– É verdade. Percorremos a rua Antônia de Queiróz a passos vagarosos. E foi cá em baixo, depois de transposta a rua Piauí, que Amadeu suspirou, desabafando: “Pois é… essas crianças fazem das suas, obrigam a gente a essas violências… depois… Depois, a gente que sofre. E sofre muito mais do que elas…!”

– Otacílio Gomes é autor de um livro de versos – Os filhos da Candinha. Por isso, dizem que ele é o “pai dos filhos da Candinha”. Está à minha frente, junto à mesa de um café.

– Dos traços fisionômicos de Amadeu Amaral – diz ele – o que mas me impressionava era a doçura de seu olhos azuis. Vi-o poucas vezes. Mas, desde que o conheci, em Santos, por ocasião de uma festa em sua homenagem, senti de mim para mim que era pelo olhar que se manifestava, mais fortemente, a humanidade do artista. Se fosse descrever-lhe a pessoa, não seria capaz de dizer, com acerto, senão que era alto e suave. Nenhum pormenor conservei, na memória, de sua fisionomia. Fugiu-me completamente a sua feição. Sempre que me lembro dele, entretanto, os dois pontos luminosos dos seus olhos, anilados e serenos, se acendem para o milagre de sua presença, tal como o vi a primeira vez: alto e suave.

Uma tonalidade de reminiscência na voz, Octácilo continua:

– Aprendi a amá-lo, mas com a discrição do seu temperamento: de longe, através de sua obra, sem coragem para maiores expansões afetivas, nos poucos encontros ocasionais. Amadeu havia de se surpreender, se percebesse, algum dia, a minha timidez, sem relação a sua pessoa! Tanta bondade e tanta lhaneza não saberia admitir restrições que, aliás, eram em mim apenas um defeito de formação. Foi, pois, sem sombra de mágoa, sem dar maior importância ao caso, achando mesmo natural, que, certa vez, no Rio, notei a reserva e a frieza com que ele respondeu aos cordialíssimos cumprimentos que lhe dirigi, um encontro de rua. Conclui, logo, que não me reconhecera. Estava ele com Cornélio Pires. Despedi-me, logo em seguida, não pensei mais no incidente. Acontecimento banal… Coisa desculpável, num homem ilustre, cheio de amizades. Assim considerei o episódio.

– E Amadeu?

– Não pensou assim. No dia seguinte, fui instantemente procurado pelo Cornélio, que lhe havia dito quem eu era. Encontrou-me. Disse logo, que vinha da parte do poeta de espumas, que mandava apresentar-me desculpas, por não me haver reconhecido. Não se perdoava a falta. Estava incomodadíssimo… E Cornélio acentuou que, na véspera, Amadeu jantara mal e não conseguira dormir direito…

 

Carta de jogo antigo.Folclore

1920 – O Dialeto Caipira, Casa Editora O Livro, São Paulo
1948 – Tradições Populares, Instituto Progresso Editorial, São Paulo (póstumo)

Outras obras

1900 – Urzes (poesia)
1910 – Névoa (poesia)
1917 – Espuma (poesia)
1920 – Letras Floridas (poesia); A Pulseira de Ferro (novela); Um Soneto de Bilac (conferência)
1921 – Cuidar da Infância (conferência); Dante (conferência)
1924 – A Lâmpada Antiga (poesia); O Elogio da Mediocridade (ensaios de crítica literária);
1929 – As Promessas do Escotismo (conferência)
1931 – Poesias (contendo poesias de Névoa e todo o livro Espumas)
1938 – Memorial de um Passageiro de Bonde (obra póstuma, sob o pseudônimo de “Felicio Trancoso”).

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