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O DOUTOR DAS RAÍZES

É na feira, onde hebdomadariamente o "doutor das raízes" instala o seu "consultório": o local é indicado pelos fiscais municipais (que recebem a devida taxa), em geral, bem no centro da praça fronteira ao mercado municipal. É um "consultório" muito simples, geralmente chamado pelo povo de banca do raizeiro: um caixão de querosene onde trouxe os "preparos" lhe serve de assento, à frente estende uma ou duas esteiras de piri. É sentado no seu caixão que o raizeiro dá as suas receitas. Banca não existe, mas ali no calçamento estende as esteiras, sobre elas distribui as raízes, folhas, cascas, lascas de madeira, frutos, sementes, penas de aves, couro, escamas, enfim os remédios mágicos, religiosos e naturais usados quer na medicina mágica, religiosa ou empírica, os remédios para seus males tem na banca do raizeiro o pábulo para os chazinhos, mezinhas, garrafadas, lambedouros, cataplasmas, tópicos, purgantes, vomitórios, suadouros, banhos, etc.

Nelas não são encontradas apenas comidas especiais, pois até material para a excretoterapia já encontramos: fezes de cachorro (jasmim-do-campo). Além de "preparos" é comum sobre a esteira do raizeiro encontrar-se farta literatura de cordel, opúsculos de orações, figas de madeira ou de coral, latinhas com pregos, agulhas, linhas, berloques, etc.

Adiantou-nos o "doutor das raízes" que em certas épocas do ano faltam alguns "aperparos", daí periodicamente visitarmos sua banca para registrar os novos remédios que porventura aparecerem. Adiantou-nos que, conforme "os tempos", têm mais saída uns remédios, outros menos, razão de ir à mata buscá-los só na "percisão". Certos "aperparos" dependem da estação, por exemplo, algumas flores silvestres, frutos e sementes. Determinados paus ou cascas precisam ser tirados na lua certa, outros durante a quaresma e há cousas que só terão efeito, "tiro e queda", quando colhidas ou preparadas na Sexta-Feira da Paixão. A posição do Sol também deve ser observada, principalmente quando se trata de raiz, algumas requerem ser arrancadas "a pulso", fazendo força, outras tiradas, isto é, descoberta a terra ao redor e puxada sem gemer, ora antes do sol nascer, ora antes do meio-dia, outras à noite de determinada lua.

Na banca do "dotô Adilião", conhecido e afreguesado raizeiro que aparece semanalmente em Piaçabuçu, encontramos os "preparos" (Veja ao lado a descrição de alguns preparos).

Grande é a procura de ervas na banca do raizeiro porque estas somente tem valor medicinal quando colhidas no mato, no sertão. É do consenso geral: raizeiro de confiança observa dias, meses, lua, etc., para buscar plantas no mato. Ai daquele que assim não proceder, cairá em descrédito!

Pode parecer estranho a ausência de jurema na banca do raizeiro. Odilon explicou-nos: "Só por encomenda; e ela não pode ficar exposta aos olhares de todo mundo".
Ela não é vendida, é trocada. Aliás, é o mesmo vocábulo usado quando se trata de santos, fitas antopométricas dos santos, bem como do sal. O que é sagrado não é vendido é trocado.

Algumas pessoas participantes do toré afirmam que a jurema tem valor quando plantada em casa onde há "piana", e quando há necessidade de sua colheita no mato, quem a deve fazer é exclusivamente o presidente do toré. Para que não desmereça o seu poder mágico, ter-se-a que observar não apenas o local onde é colhida, mas principalmente quem a vai colher. E jurema, a "couina", não é beberagem para curar, não é garrafada, é a bebida que dá uma nova, que transporta os juremados para um mundo melhor.

(Araújo, Alceu Mayanard. Medicina Rústica)
 

• Alfazema: Faz-se chá. A defumação para desinfetar quando a criança nasce e também é usada no chá para dores de barriga pós-parto. Usado para as mulheres que quebram o resguardo, na falta das regras. Para curar dor de dentes mistura-se com fumo de cigarro ou coloca-se no cachimbo.

• Arruda: Para qualquer malefício. Para defumação, contra mau-olhado, para banhos.

• Catuaba: No vinho para fraqueza sexual, impotência.

• Enxofre: Faz-se pomada para curar coceira e sarna.

• Erva-doce: Das sementes faz-se chá para curar dor de barriga de criança e adulto.

• Eucalipto: Faz-se chá das folhas. Usado para febres. A tintura de eucalipto, cheirar para dor de cabeça.

• Gengibre: Com álcool; para esfregação no lugar dolorido. Macera-se e põe-se de infusão no álcool. Usado nas massagens de dores musculares.

• Jasmim-do-campo (fezes de cachorro secas): faz-se chá para rebentar sarampo das crianças.

• Jatobá: Casca ralada em chá para falta de ar.

• Laranja: Da casca, chá para dor de barriga e indisposição estomacal.

• Macela: Faz-se o chá das folhas, o melhor porém é o das flores. Cura dores no corpo, mal-estar, enxaqueca e dor de dente infantil, primeira dentição.

• Malva-rosa: Faz-se chá para curar "mula", blenorragia, "doenças de mulher".

• Mastruz: Usa-se tudo menos a raiz. O sumo contra reumatismo, pisaduras, pancadas, golpes. Nas fraturas, encana-se com uma "taboca"(tábua) e envolve-se com mastruz. Quando for usado para curar vermes, deve-se ficar de resguardo um dia. Também usado para curar animais.

• Parreira (tronco de): Rala-se, faz-se chá abafado, suadouro. Para todas as dores.

• Parreira (folha de): Para o fígado, para quem está com inchação, para cólica uterina, faz-se chá.

• Pixilinga: Purgante "consertado", misturado, com óleo rícino e noz-moscada.

• Quebra-pedra: Prepara-se como chá e pisado. Chá, para batidas, quedas, pancadas. Pisado: espreme-se o sumo numa xícara, com açúcar cristal, deixando três dias no sereno. No último dia o sumo fica embaixo. Recolhe-se só o que está em cima e pinga-se no olho. Somente para a vista, tirar manchas, anélide ou névoa no olho.

• Sucupira: Na cachaça, para o coração.

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