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SUPERSTIÇÕES DE SEXTA-FEIRA SANTA
Desde a mais remota antigüidade os "dias aziagos" existiram entre os
povos. Gregos e romanos respeitavam-nos e os reconheceram por lei. Mais tarde, com o
advento do cristianismo, foram tais superstições condenadas e abolidas. O povo,
entretanto, continuou com elas dando-lhes, porém, outras diretrizes, baseadas,
quase sempre, no próprio calendário e práticas cristãs.
Durante a Idade Média, bruxas e bruxedos eram crimes e os que os
praticavam ou deles se utilizavam, eram condenados. Entretanto, e apesar disso, sempre
existiram e nada conseguiu exterminá-los por completo, e os "filtros mágicos"
tinham larga aplicação.
Com o cristianismo, porém, mais algumas foram acrescidas, como a sexta-feira e o número
treze que se tornaram superstições baseadas na vida terrena do próprio Cristo.
A da sexta-feira tomada como dia aziago, se originou no fato de ter Jesus expirado na cruz
em dia de sexta-feira, - a Sexta-Feira Santa, - e o número treze tem por gênese a
última ceia, quando se reuniram Cristo e os doze apóstolos, treze pessoas, portanto, dos
quais, um, - Judas, - nessa mesma noite vendera o Divino Mestre por alguns dinheiros,
enforcando-se, depois, numa figueira. Por esse acontecimento também a árvore do
enforcamento, - a figueira, - se tornou maldita, segundo uns, e, segundo outros, árvore
da justiça divina, árvore da vingança.
Se o número treze não tem significado maior nos fastos do cristianismo, a
sexta-feira tem, pois é consagrada, durante todo o ano, à recordação da morte do
Salvador e a sexta-feira aniversário dessa morte é considerada santa,
denominando-se, na França, a grande sexta-feira, e na Inglaterra a boa
sexta-feira.
Na sexta-feira santa, em todo o orbe cristão, os sinos não tocam
e o catolicismo, além disso, nesse dia não reza a santa missa. É, dessarte, dia de luto
integral e não de festa, daí não ser considerado, apesar do nome, dia santo de guarda e
ser proibido, canonicamente, comer carne a não ser peixe, e ser
obrigatório o jejum a todas as pessoas maiores de vinte e menores de sessenta anos.
Chama-se esse dia, liturgicamente, parasceve, isto é, preparação,
nome que lhe vem dos preparativos que faziam os judeus, nesse dia, para a Páscoa.
Tais acontecimentos de base cristã estabeleceram, entre o povo, uma série de crendices e
superstições difíceis de serem extirpadas, formando, por isso, parte integrante do
folclore dos povos.
É curioso notar-se que, dessas superstições, algumas tiveram cunho oficial, decretadas
por lei, entre nós, no Rio Grande do Sul e nesta "mui leal e valorosa cidade de
Porto Alegre", conforme veremos mais adiante.
***
Em Portugal o respeito à sexta-feira vem de remotas eras. Alexandre Herculano, num
"romance de jogral" que declara ser do século XI (Lendas e narrativas.
v. 2. A dama Pé de Cabra), - diz que dom Diogo que casara com a dama Pé de
Cabra, bruxa ou alma penada, - recebera de um santo abade ao qual se fora confessar,
ralado de desgostos, a penitência de "ir guerrear com os perros sarracenos por
tantos anos quantos vivera em pecado, matando tantos deles quantos dias nesses anos tinham
corrido. Na conta não entravam as sextas-feiras, dia da Paixão de Cristo, em que seria
irreverência trosquiar a vil relé per agarenos, cousa neste mundo mui indecente e
escusada".
Já era o princípio de que matar em sexta-feira acarretava pecado,
mesmo em guerra justa, o que o povo entendeu dever estender também à matança de animais
para a sua alimentação, mormente na que se consagra à
comemoração da morte de Nosso Senhor. A pouco e pouco, ou simultaneamente, também os
outros trabalhos rurais, agrícolas, e, mesmo, caseiros, em sexta-feira santa foram
vedados, circundados de superstições as mais diversas e de cousas que se não devem
fazer, ora por ser pecado, ora por atrair a infelicidade e outras cousas.
Vemos, assim, entre nós, vindas de antigos tempos, superstições várias relacionadas
com a Sexta-Feira Santa, e aqui referimos, principalmente, as de nossa infância nas minas
de carvão do Arroio dos Ratos, município de São Jerônimo, Rio Grande do Sul.
***
Vida Rural
Na Sexta-Feira Santa, ainda em primórdios deste século, era proibido
pela tradição supersticiosa:
a) Matar qualquer animal, mesmo para alimentação. O fazendeiro que o permitisse ou o marchante que o fizesse estaria
fatalmente condenado a grandes prejuízos, além de outros males.
Tivemos notícia de certo cidadão que teimara em matar uma ovelha para comer no Sábado
de Aleluia e que, ao degolá-la, teve a faca arrebentada da mão e jogada, de ponta, sobre
o pé, cravando-o no solo!
Outra história com que a preta velha, cozinheira, nos enchia a cabeça, era a da sinhá
dona que matara uma galinha na sexta-feira santa e que, como castigo divino, enquanto a
galinha estrebuchava, desmaiara. Ao voltar a si, estava paralítica do
braço esquerdo, justamente o braço com que torcera o pescoço à galinha.
b) Tirar leite também era vedado. O leite ao sair do úbere da vaca, ou da cabra, virava
sangue. Ou então, em vez de leite, jorrava sangue ou ainda, ficava o animal inutilizado
porque nunca mais se podia ordenhá-la: em vez de leite, dava
sangue, leite com
sangue!
Contavam várias transformações dessas como a cousa mais natural do mundo. Certa feita
mostraram-nos uma vaca da qual se não podia tirar leite pois sempre saía sangue de seu
úbere. Fora estragada, diziam, pela teimosia do ordenhador em querer ordenhá-la em
Sexta-Feira Santa.
Contou-nos um "crente" que seu pai tivera uma vaca de primeira qualidade, grande
leiteira. Entretanto, ordenhada numa Sexta-Feira Santa, ficara inutilizada, pois
o úbere ficara coberto de feridas que nunca foi possível curar. Outro nos contou que,
pelo mesmo motivo, o úbere secara
e a vaca ficara estéril!
Por tais cousas, no dia da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo ninguém tomava leite.
Entretanto, soltavam os terneiros para ficarem com suas
mães, mamando à vontade. E nada acontecia!
c) Vender carne que não fosse de peixe, nesse dia, acarretava a cólera divina. Por isso,
já na quinta-feira à tarde não se procedia à matança alguma, pois ninguém quereria a
carne com medo das conseqüências. Mesmo porque comércio algum abria suas portas e
não havia ainda refrigeração.
A matança do gado, portanto, só se iniciava pela madrugada, - três ou quatro horas, -
de sábado, e somente depois das dez da manhã Sábado de Aleluia, - é que se
reiniciavam as atividades em geral, abrindo o comércio e, também, os açougues, com
carne fresquinha, às vezes ainda quente. De modo geral as atividades comerciais e
industriais eram suspensas ao pôr-do-sol de quinta-feira. Só os botequins e armazéns ou
mercearias é que ficavam abertos (alguns!) até mais tarde: vinte e duas, vinte e três
horas.
d) Toda e qualquer atividade campeira era proibida. Nenhum estancieiro ou criador
atrevia-se a percorrer seus campos em Sexta-Feira Santa com medo dos males que lhe
poderiam acontecer e
das almas do outro mundo.
Soubemos de certo criador que tendo sido informado que uma de suas vacas de raça estava
dando cria na manhã de sexta-feira santa, correu para ver o animal, isto é, para ver se
estava bem. Aconteceu-lhe assustar-se o cavalo que montava justamente ao aproximar-se da
vaca e, metendo a pata dianteira num cupim, rodou jogando o cavaleiro à distância e, -
cousa incrível! sobre a vaca, matando-a e ao terneiro, por isso!
Agricultura
Nada se podia plantar ou colher na roça, horta ou pomar ou jardim em Sexta-Feira Santa, a
não ser certas ervas medicinais que somente deviam ser colhidas em tal dia para
produzirem o devido efeito. Tal o caso da macela (Achyrocline saturioides), por
exemplo. Para essas colheitas que começavam (e ainda hoje são praticadas
)
à meia-noite de quinta-feira e se prolongavam pela madrugada, cometiam verdadeiros
desatinos em conseqüência da muita cachaça e, também, outros, em autênticas saturnais por vales e morros onde
existisse macela!
Há certas plantas, principalmente flores, que se devem submeter a certos tratamentos
especiais na Sexta-Feira Santa, para darem bem. O rainúnculo (ranúnculo, da família das
ranunculáceas, Ranunculus asiaticus, L., próprio para jardins), por exemplo, para
dar bem, é preciso que a batatinha seja conservada em água na Sexta-Feira Santa e
enterrada no Sábado de Aleluia ou domingo da Páscoa, no lugar apropriado, pois não pode
ser mudada como, no geral, as plantas de batata.
Perseguir formigas ou pássaros ou animais que costumam estragar plantações, em
Sexta-Feira Santa, era o mesmo que aumentar-lhes o número e o poder destruidor. Podiam
estar vendo os estragos, mas não se moviam.
Comércio
Em Sexta-Feira Santa não ficava aberta casa comercial de espécie alguma. Nem mesmo os
botequins. Apenas as farmácias podiam fornecer medicamentos e isto em caso de muita
urgência. Mas, mesmo estas, não podiam ficar com as portas abertas. No geral o
medicamento adquirido em Sexta-Feira Santa não era cobrado, pois nada se devia vender
nesse dia. E ninguém vendia o que quer que fosse. Dava de presente quando alguém, por
extrema necessidade, pedisse algo.
A Sexta-Feira Santa era dia completamente morto.
Sociedade
Só por necessidade muito grande alguém saía à rua na Sexta-Feira Santa. O silêncio
era absoluto. Não se via um só cavaleiro, carro ou carroça (automóveis não existiam
então, naquela zona ao menos). Essa superstição, aliás, teve outrora, em certas
localidades, cunho de lei. A Câmara Municipal de Porto Alegre, capital do Rio Grande do
Sul, em sua sessão de 18 de outubro de 1870, aprovando suas novas Posturas Municipais,
aprovava, ipso facto, o artigo 4º que rezava: - "É proibido andar a
cavalo ou de carro no dia de sexta-feira santa. O contraventor pagará 30$000 de
multa". Era uma das multas mais elevadas consignadas nessas Posturas.
(Veja-se o original na Diretoria do Arquivo e Biblioteca da Prefeitura Municipal de Porto
Alegre, e uma nota, a respeito, no Boletim Municipal da mesma cidade, nº 13, de
janeiro a abril de 1943, p. 77)
O povoado em que nascemos, nesses dias, parecia verdadeiro cemitério, pois nem mesmo as
casas de família abriam as portas ou janelas. Tudo hermeticamente fechado. Só pelos
fundos se notava algum movimento.
Casas havia, - e muitas, - que nem sequer o fogão acendiam. Limitavam-se a almoçar e
jantar frio o que haviam preparado especialmente para a sexta-feira santa, na véspera.
As crianças não faziam barulho algum. Chorar assustava. Rir e especialmente rir alto
causava terror aos pais e demais pessoas, pois podia acarretar algum mal, pelo desrespeito
à data. Aliás, as crianças, todas, viviam cheias de pavores pela
Sexta-Feira Santa porque já semanas antes vinham os pais ou as empregadas domésticas
matracando no que se podia e não podia fazer naquele dia. E lá vinham, de cambulhada, os
castigos e desgostos que a desobediência àqueles preceitos trazia.
Havia castigos de arrepiar! Os aleijões formavam na vanguarda.
Contava-se que certo moço metido a descrente fora, na madrugada de uma Sexta-Feira Santa,
pescar no Arroio dos Ratos, modesto arroio que às vezes se eriçava alagando grandes
trechos, mas muito aprazível pela mata-galeria que o marginava, e distante algumas
dezenas de quilômetros do povoado propriamente dito. Depois de algumas horas de
infrutífera faina, eis que morde o anzol enorme peixe. Nunca vira o moço, pescador
habitual naquelas e outras águas, tão grande pintado ("surubim", da família
dos silurudeos) em toda sua vida de pescador!
Radiante, - apesar de assombrado, - examinava e reexaminava o peixe que, pelos seus
cálculos deveria pesar mais ou menos dois quilos. Mas, enquanto admirava e apalpava o
animal, forte cheiro de enxofre queimado se fez sentir. E o cheiro aumentava cada vez
mais. Desconfiado, olhou em torno. Silêncio absoluto. Só ele de vivente, ali, com o
peixe na mão. Entretanto, o cheiro se tornava cada vez mais forte, sufocando-o quasi.
Assustado, largou o peixe no chão com intuito ou de examinar o local ou
fugir, quem
sabe. Mas o peixe, com o contato da terra explodiu levantando nuvens de fumaça que,
gargalhando infernalmente, desapareceram por entre as árvores.
O infeliz pescador voltou à casa meio transtornado, dizem, e nunca mais ficou bom da
cabeça. Morreu completamente abobado
***
Contavam também, que em certa Sexta-Feira Santa, chuvosa, com relâmpagos e trovões
(outros dizem apenas chuvosa), uma senhora, aí pela meia tarde, fora buscar água
na fonte que ficava próximo à sua casa e que, ao retirar o balde cheio, um raio a
fulminara, reduzindo-a a um punhado de carvão.
Conhecemos essa fonte, abandonada por completo, quando já por perto passava a estrada que
levava ao poço novo do Arroio dos Ratos, numa pequena baixada.
Em torno desse acontecimento formou-se a lenda: todas as sextas-feiras, à meia-noite,
aparecia na fonte a alma daquela mulher tirando água. Havia quem jurasse tê-la visto
mais de uma vez
Disseram-nos que em 1917 essa fonte secara por completo, desaparecendo, por isso, a alma
penada da pobre senhora que não pudera passar um dia sem água
***
A par das almas penadas e assombrações das sextas-feiras, outras crendices surgiram como
a do lobisomem. O lobisomem, lobisome ou lombisome é a transformação do homem em
cachorro, tranformação essa que se realiza na noite de quinta para sexta-feira, em
consequência de pragas rogadas ou de malefícios feitos pela vítima. Há várias causas
dessa tranformação. Quasi que em cada estado do Brasil há razão especial. No Rio
Grande do Sul, segundo conseguimos apurar, o lobisomem é conseqüência de pragas rogadas
ou produto das maldades de homem ou mulher que nunca procurou fazer bem a quem quer que
fosse.
Havia gente, - recordamo-nos de algumas pessoas nessas condições, - de quem jamais
ousavam aproximar-se receando seus malefícios. Homens e mulheres, miseráveis, sujos,
imundos, que viviam não se sabia onde nem como. Perambulavam pelas ruas pedindo esmolas.
Ninguém lhes negava um níquel ou um prato de comida com medo de que esses infelizes
pudessem fazer na sua triste sina de virar bicho, - enormes cachorros pretos, - nas
sextas-feiras, especialmente na primeira de cada mês.
Havia um arroio, afluente do dos Ratos, que passava pelos fundos da nossa casa, nascido de
uma lagoa pouco acima do Poço Fé, que diziam ser habitado, em certo trecho, pelos
lobisomens. Esse humilde e anônimo riacho, cerca de um quilômetro além do povoado,
formara uma ilha que teria, talvez, seus cinco metros quadrados, ao que constava. Nessa
ilha, afirmavam, é que viviam os infelizes que viravam bicho. Apesar de não termos
conhecido muito esse riacho sem nome, não nos recordamos de tal ilha e muito desconfiamos
que tanto ela, como os lobisomens, eram produto da fantasia fecunda de tais contadores de
estórias
Mas é inegável que todos, ou quase todos os moradores da zona, criam
piamente nesses homens-bichos e não faltava vivente que afirmasse ter-se visto
atrapalhado om algum deles depois da hora da transformação: meia-noite de quinta para
sexta-feira
***
Para encerrar este capítulo, um fato deveras estranho que assistimos lá por 1910 ou
1911, e conservados em suas linhas gerais, gravado na memória.
Um dia, não faz muitos anos, recordando esse acontecimento, perguntamos a papai
(falecido em dezembro de 1945) o que havia de verdade em tudo aquilo.
Papai, que viveu oitenta anos trabalhosos, nunca deu crédito a tais cousas, e nem mesmo a
esse que vamos narrar e que ele assistiu, declarando-nos que tudo fora obra de dois
indivíduos que haviam sido despedidos das minas por vagabundos e ladrões. Seja como for,
aquilo causou terror e passou a fazer parte do rico populário da zona, em matéria de
superstições relacionadas com a Sexta-Feira Santa.
Domingos, feriados e dias santos costumavam reunir-se ora em casa de um, ora em casa de
outro, diversas pessoas das minas de carvão do Arroio dos Ratos, para jogarem o solo até
meia-noite, no geral. Faziam parte da roda papai e um sobrinho dele, engenheiro de minas.
Na Sexta-Feira Santa de um dos anos acima referidos, a reunião dos parceiros se realizou
em nossa casa que ficava, do Poço Fé, então em pleno funcionamento, cousa de trezentos
metros. Naquela sexta-feira santa, como nas anteriores semelhantes, atendendo ao velho
costume, o trabalho estava completamente paralisado desde às dezoito ou dezenove horas da
véspera. E as ruas desertíssimas. Vivalma se via. Somente dois guardas perambulavam,
talvez cheios de terror supersticioso, por aqueles enormes galpões e casas de máquinas.
A reunião para o jogo, em vez de começar à noite como era hábito, começou à meia
tarde, pelas dezesseis horas, por ser sexta-feira santa e alguns morarem meio longe.
Terminaria, assim, pelas vinte horas, não por medo, deveriam pensar alguns deles, mas por
precaução
Realmente, pelas vinte horas terminavam a partida de solo que era o jogo da moda e choque
da localidade.
Dois dos parceiros, um deles engenheiro de minas, sobrinho de papai, saíram por último
pois residiam mais perto. O caminho da casa de ambos obrigava-os a atravessar as linhas
férreas do trenzinho que levava o carvão para o porto de Charqueadas, no rio Jacuí.
Essas linhas e respectivos desvios para manobras eram as que separavam nossa moradia do
Poço Fé. Ao porem, os dois, os pés no leito da via férrea, eis que tudo, nos galpões
e casas das máquinas se põe em movimento. As fornalhas estavam completamente apagadas.
Os dois guardas apareceram em seguida, espavoridos, dizendo que tudo estava em movimento
sem que houvesse viva alma lá por dentro.
Realmente, o barulho, naquele silêncio profundo, era enorme. Todos nós aparecemos às
janelas de nosso sobrado. Papai desceu e foi fazer companhia aos engenheiros que,
entretanto, não se atreviam a entrar nos galpões, e casas de máquinas. A
"gaiola" (elevador) descia ao poço e subia continuamente; ouvia-se o ruído
característico da quebra dos blocos de carvão; o barulho das pás atirando o cascalho de
um para outro lado; as "peneiras" trabalhando no despejo do carvão nos vagões;
tudo, enfim, inclusive a pequena serraria para aparelhamento dos madeiramentos de escora
no fundo do poço, estava em movimento. Entretanto, nenhuma luz, nem um filete de fumo
sequer saía pelas diversas chaminés.
Durou este movimento cerca de meia hora. Talvez nem tanto, pos a impressão pode ter
"ampliado" o tempo. Paralisado o misterioso "trabalho" quis nosso
primo visitar os galpões. Mas
quem se atreveria a acompanhá-lo? Quem se meteria
lá por dentro naquele lusco-fusco assombrado pelo silêncio morto que logo se fez?
Resolveram, então, os engenheiros, deixar a inspeção para o dia seguinte, Sábado de
Aleluia. E seguiram para casa. Mas a cousa não havia cessado de um todo, pois ao passarem
pelos montes de cascalho, resíduos de carvão queimado nas fornalhas e outros detritos da
mina, receberam os dois, lá do alto, algumas pazadas desse material que, se não os
feriu, deixou-os em miserável estado de sujeira.
No dia seguinte revisaram a maquinaria, o material do elevador, e reviraram todos os
recantos dos galpões, oficinas e casas das máquinas. Nada de anormal observaram. Estava
tudo na mais perfeita ordem. Notava-se, apenas, algum carvão removido e alguns vagões
semi-carregados. Mas ninguém quis descer ao poço. Foi preciso que os engenheiros
examinassem todas as galerias noventa e nove metros abaixo do nível do solo. Como não
houvesse anormalidade alguma, resolveram os mineiros "pegar no trabalho".
E tudo continuou serenamente, como dantes
Mas a lenda se fez e ficou por longos anos
entre os velhos mineiros, desaparecendo, por fim, de todo, ou quasi de todo quando novos
elementos, vindos de Espanha, ali se instalaram como imigrantes trabalhadores de minas.
Embora explicassem o estranho fenômeno como obra de dois indivíduos que haviam sido
despedidos por meio de combinação de polias e correias e manivelas e recalques manuais
que ali existiam, ninguém acreditava. Na realidade, nunca se pode explicar
satisfatoriamente, para o povo, esse caso. Para eles, tudo foi conseqüência da
intervenção diabólica, ou advertência divina aos que, desrespeitando a Sexta-Feira
Santa, se haviam entregue ao jogo
embora por simples passatempo.
Vox populi
(SPALDING, Walter. Tradições
e superstições do Brasil sul) |

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