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MANHÃ DA QUARTA-FEIRA SANTA 
No Rio de Janeiro, como em Roma, as
leis da Igreja Católica relativas à comunhão impõem igualmente ao cura a obrigação de proceder ao
recenseamento de seus paroquianos no início da Quaresma, a fim de poder controlar mais
tarde a obediência dos fiéis no cumprimento dos atos religiosos. Entretanto, esse
recenseamento é tanto mais complicado no Brasil quanto o senhor se sente conscientemente
no dever não apenas de obrigar todas as pessoas de sua família a comungarem, mas ainda o
maior número possível de seus escravos, principalmente suas negras, as quais, empregadas
exclusivamente nos serviços das amas, devem compartilhar escrupulosamente com elas as
práticas religiosas.
Por isso mesmo, a execução desse ato obrigatório torna-se para o clero um excesso de
atividade extremamente exaustivo, sobretudo durante as últimas duas semanas da Quaresma;
pois, a partir do domingo da Paixão, todas as igrejas permanecem abertas para a
confissão, das cinco horas da manhã até às dez, e de noite, das nove horas às onze.
Essa providência favorece sobretudo os funcionários das repartições e aumenta
especialmente a afluência a partir da Quarta-Feira Santa, porquanto coloca dia e noite,
nas diversas igrejas da cidade, confessores à disposição dos fiéis. Por isso, durante
os últimos dias, em todas as paróquias, tanto as catacumbas como as sacristias e os
corredores de comunicação ficam apinhados de penitentes de pé, agrupados em torno dos
confessores sentados em banquinhos ou outros assentos improvisados. Os confessionários de
dentro das igrejas são especialmente reservados às senhoras de todas as classes.
A fim de facilitar a distribuição de cartões de confissão, em cada paróquia manda-se
imprimir a fórmula, de modo a que baste em seguida acrescentar o nome do solicitante.
Quanto à comunhão, a cada dupla fileira de fiéis que se forma, em frente da santa mesa,
aparece, vindo da sacristia, um clérigo encarregado de marcar os
cartões de confissão de todas as pessoas preparadas para comungar; logo em seguida surge
um padre com o cibório, acompanhado de quatro
membros da Irmandade do Santíssimo Sacramento carregando círios acesos e de um outro
transportando enorme taça de estanho cheia de água para que cada comungante possa beber
um gole. Um dos irmãos, à frente do padre, recolhe os cartões de confissão das pessoas
que vão comungar; depois da cerimônia, aguardam os comungadores o regresso do padre, o
qual lhes devolve os cartões revestidos gratuitamente de todas as formalidades
prescritas.
Uma senhora que se aproxima da santa comunhão deve, de acordo com o costume,
apresentar-se vestida de preto, sem chapéu, mas com a cabeça coberta por um véu. O
mesmo ocorre em relação à confissão; exige-se das negras que cubram a cabeça com um
lenço ou echarpe, e o fato de serem admitidas à comunhão constitui para elas uma prova
de alta civilização.
A cena se passa na pequena igreja de Nossa Senhora da Mãe dos Homens, situada à rua da Alfândega. O altar-mor, tão resplendente nos dias de festa, com sua
pirâmide ardente iluminando a efígie do santo padroeiro do
templo, entregue hoje ao silêncio e à obscuridade, mostra seus inúmeros degraus
despojados da enorme quantidade habitual de candelabros. Assim também, em virtude de se
achar agora consagrada à contrição, apresenta a igreja
inúmeros fiéis vestidos de preto, implorando perdão para seus erros num silencioso
recolhimento.
Ajoelhados diante da santa toalha, recebem os fiéis a comunhão das mãos de um
padre escoltado, como já dissemos, por quatro membros da Irmandade do Santíssimo
Sacramento; o clérigo que apresenta a taça cheia de água fecha o cortejo.
Pela porta lateral da direita, no corredor que conduz à sacristia e às catacumbas vê-se
um padre sentado ouvindo a confissão de um dos penitentes; perto da mesma porta, mas no
interior da igreja, duas negras sentadas no chão aguardam sua vez para substituir a que
se confessa no momento, escondida sob o seu xale. [1]
Mais à direita, senhoras da classe abastada estão sentadas nos degraus de um altar
lateral e esperam também a sua vez para apresentar-se ao confessionário, já ocupado por
uma delas. À esquerda, afinal, observa-se uma terceira cena de confissão. É preciso
notar que a simplicidade da construção do confessionário brasileiro obriga o penitente
a uma posição extremamente incômoda, forçando a apoiar-se a uma das mãos para
aproximar-se da grade que o separa do confessionário.
Senhoras de todas as classes mantêm-se sentadas no chão da igreja, em
grupos, na posição em geral adotada pelas brasileiras nesse recinto sagrado. À
esquerda, uma senhora de mantilha entra com sua negrinha,
enquanto outra, mais elegante, acompanhada de suas duas negras, sai ainda compenetrada da compunção inerente ao cumprimento
dos deveres religiosos.
Todas as tribunas de igreja, hoje desertas, são reservadas durante as outras festas a
elegantes devotas, parentes ou esposas dos membros dignitários da irmandade da paróquia.
Nota:
1. Reconhece-se por essa
atitude a negra maliciosa ou tímida que procura esconder-se aos olhos do seu confessor.
(DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao
Brasil. Parte III, prancha 31) |
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