SABOARIAEntre as múltiplas obrigações da mulher barranqueira, cabe-lhe ainda
fabricar o sabão para as exigências domésticas. Fazem-no aproveitando murrinhas, ou animais condenados,
que para tal fim são abatidos. Ou o fazem de sebo, fato, ossadas, ou de oléos extraídos
do coco-palmeira, do indaiá, do macaúbas, e do bago da mamona, e
do pinhão, e da castanha do pequi, da semente do cansanção, do olho de coqueiro.
Ou o fabricam, ainda, da mistura de óleos e gorduras com polpa de tingui e de pequi. A massa destas
frutas passam além de oferecer maior rendimento tem a vantagem de dar firmeza ao sabão e
diminuir consideralvemente o consumo da decoada.
Para fabricar o sabão, despejam a massa (vegetal, animal ou ambas) num
tacho, e levam este ao fogo, apoiando-o sobre trempes de pedra a um canto do
terreiro. O tempo de infusão subordina-se, naturalmente, à maior ou menor consistência
da massa empregada. Depois de algumas horas de fogo, pelo menos, sobre aquela vão
deitando a lixívia até desaparecer a
gordura. Costumam adicionar, nessa altura, alguns pedaços de mandacaru para dar liga ao sabão,
bem como associa soda caústica à diquada. Mexem o cozimento com um
pau e, pronto o sabão, despejam este num cocho ou gamela. Mais tarde reduzem-no a bolas
de libra, calculadas a olho pela saboeira, que não falha nunca. Depois o levam à
dispensa, onde o armazenam para todo o ano. Às vezes empilham grandes
depósitos, naturalmente quando se vêem obrigadas a aproveitar animais pesteados e empanzinados pela maniueira ou pela erva-braba, ou
mordidos por serpentes venenosas.
Extraem a decoada da cinza, que é apanhada após a queima, nas caieiras e roçados, ou,
preferentemente, nas coivaras para aquele fim
alevantadas. Erguem-nas de madeira verde apropriada, como a mamoninha do mato ou a da
chapada, e o gonçalo. Neste particular levam em conta a região. Assim, é que há
madeiras boas para cinza, aqui, e recusadas ali. Da safra de milho, à medida que debulham
as espigas, vão amontoando os sabugos, com o que mais tarde, fazem coivaras para
aproveitamento de sua cinza, que dá excelente decoada. Ao contrário do
itapicuru, as madeiras da catinga, quase todas de cerne forte não se prestam a
cinza, como por exemplo o jatobá, a braúna, a aroreira. Se fraca a cinza, podem
melhorá-la adicionando-lhe um pouco de cal. Também escolhem essa ou aquela madeira
quando tem em vista o emprego que pretendem dar à lixívia, que é indispensável nos
engenhos de açúcar para "levantar" rapaduras, em cujo melado põem decoada
fraca, extraída, de ordinário, da cinza da mutamba.
A decoada forte é testada por meio da tapioca, para o que deitam um pouquinho desta numa
xícara, é decoada em seguida. Se forte esta for, torna-se grude a tapioca.
Serve a decoada fraca para cozinhar sabões e apurar garapa de cana. E a forte somente
para afinar sabões. Claro que a lixívia que primeiro gotejou é mais forte, salvo quando
for a cinza de qualidade inferior, porque neste caso uma e outra são fracas. Se boa for a
cinza, levanta-se meia arroba de sabão com apenas duas garrafas da decoada que pingou
primeiro. Ao contrário, com igual medida de decoada fraca não se consegue levantar mais
do que seis libras.
A coivara para se obter cinza é sempre erguida nas proximidades da casa da saboeira.
Fazem-na, de madeira verde, amontoando os toros, entremeados com
garranchos secos para facilitar a propagação do fogo. Acautelando contra chuvas a cinza
para que não enfraqueça, recolhem-na, e cessam-na em seguida para a istaladêra, que é um grande cesto
afunilado, feito no terreiro da casa ou no fundo do quintal, também chamado de arapuca.
Tecem-no entre quatros moirões de dois metros de altura, aproximadamente. A base é mais
ou menos quadrada. No topo dos moirões fixam-se quatro travessas, formando-se um quadro,
donde se inicia a arapuca propriamente dita, ou entrançamento de cipós e varas, estas de
1,60m de comprimento, ou pouco mais. São todas providas de gancho em uma das
extremidades, para que se apoiem nas travessas. De entrançadura grosseira, deixa o pano,
comumente, grandes intervalos, sem probalidade, contudo, de desperdiçar cinza por
ocasião do encestamento, uma vez que vedam as aberturas com uma camada de capim agreste,
ou penasco.
A parte inferior e superior da arapuca vão amarradas com cipós. Entre uma e outra
costuma entrançar dois ou três arcos, também de cipós, varando o número delas segundo
a capacidade da arapuca. Depois de pronta, toma esta a forma de pirâmide invertida, cuja
base, a boca mede cerca de 60 a 70 centímetros de lado. Enchem de cinza o cesto socando-a
a mão de pilão, para o que adicionam aquela um pouco de água. Na
parte superior da pirâmide de cinza escavam uma depressão para agasalhar a água
necessária à filtragem do caustíco. Entre um a dois dias após ter sido alimentada, a
destiladeira começa a gotear sobre uma cumbuca, ou gamela, donde é
engarrafada. Em duas quartas da melhor cinza extraem cerca de um garrafão de decoada, do
qual são fortes as seis primeiras garrafas e fracas as demais.
Empregam o sabão-de-decoada na lavagem de roupas e vasilhas, bem como
no asseio corporal. Preferem-no, aqui, ao pão-de-sabão ou sabão-do-reino. Também desempenha
ele grande papel na medicina popular, que o recomenda na prevenção de cabelos brancos e
no combate às moléstias parasitárias da pele.
(Martins, Saul. Artes e
ofícios caseiros)