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APETRECHOS PARA TECELAGEM MANUAL

Assim é que encontramos nas casas das tecelãs os implementos para a fiação e tecelagem todos rústicos e toscos, de fabricação doméstica.

Escaroçador (descaroçador): Numa banqueta retangular sobre quatro pés, instalam-se dois montantes verticais, entre os quais se colocam conjugados dois cilindros horizontais, munidos de manivelas.

Operação: Uma pessoa (sempre criança é que se encarrega desta etapa) de cada lado vai colocando o "capucho" (capulho) de algodão, como foi colhido, de um lado, entre as moendas. Com o movimento que se dá às manivelas, solta-se a polpa, que cai do outro lado, restando cá os caroços. O algodão está descaroçado.

Arcos ou cardas: Para se limparem as impurezas do algodão, usa-se o arco ou cardas. O arco é o mesmo que se pode usar para flechas.

Operação: Com uma das mãos, segura-se o arco, e com a outra vai se distendendo a corda sobre o algodão descaroçado. Resulta uma pasta homogênea e bem fofa. Para o mesmo fim se usam as cardas (quem pode comprá-las). As cardas são duas pequenas pás munidas em uma de suas faces de uma espécie de escova de pontinhas de aço, bem juntas, cobrindo toda a área da pazinha.

Coloca-se um pouco de algodão descaroçado entre uma e outra e vai-se escovando de maneira que a impureza, que continha o algodão, se separe, resultando a pasta fofa e limpa. As cardas mais usadas, ou melhor, as que conhecemos são de procedência inglesa. São muito antigas, mas cremos que já se montam cardas no Brasil com aço importado.

Fuso e Roda (roca): São desnecessárias descrições deste dois implementos, pelo muito que são conhecidos. Da pasta limpa como pluma, no fuso ou na roda se transforma em linha o algodão cardado.

Dobradeira (dobadoura): É um engenho para se transformar as meadas a linha fiada e enovelada. Ela se compõe de uma cruzeta de madeira servindo de suporte para uma haste fixa verticalmente. Na extremidade de cima dessa haste, coloca-se outra cruzeta móvel (que gira na haste, que é um eixo), tendo em cada ponta uma vareta vertical (20 cm).

Operação: Amarra-se a ponta da linha em uma das varetas, e com um impulso com a mão faz-se girar a cruzeta, e o fio sai do novelo e se envolve na dobradeira. A meada deve ser frouxa para ser tingida, recebendo o corante de forma igual. Para se tecer o "guingau" (um padrão de tecido), toma-se a meada, isola-se uma parte, tingindo apenas a outra. Assim o fio fica com dois tons diferentes.

Tear: Usa-se mais comumente o tear horizontal, de pedal, embora no Norte ainda se encontrem teares verticais. Descrever um tear é tarefa complicada, deixemos para outra informação específica. Contudo, uma parte importante para se realizar o tecido é o número de liços usados conforme a padronagem que se quer obter. O pente por onde também correm os fios da urdidura aperta o fio repassado.

Canoinhas ou lançadeiras: As lançadeiras são mesmo em forma de canoinhas de madeira, onde se colocam as canelihas com o fio colorido para se fazer o tapume ou o repasse. A canoinha com os fios de tapume é lançada entre os fios da urdidura, que são passados entre os dentes dos liços e do pente. Os pedais levantam e abaixam os fios da urdidura para dar passagem ao fio do tapume e compor o desenho ou "repasse".

Canelinhas (canilhas, espécie de carretel): São pequenas hastes que se encaixam na canoinhas. O nome se deve à aparência que tem com um osso de canela (fina no meio e extremidades arredondadas). Dizem que antigamente se usavam mesmo os ossinhos, mas hoje o material usado é o gomo do bambu. Os tecidos são feitos sob desenhos chamados "repasse". Os nomes dos desenhos são variados e conhecidos entre as tecelãs, como: caramujinho, laranja partida, trem de ferro, chocalho de cascavel, guingau e muito outros. As receitas são conservadas e reproduzidas em tiras de papel, onde se veêm pequenos traços verticais, agrupados de espaço em espaço, em números diferentes. Sua leitura é indecifrável para o leigo. Pelos riscos ou traços, não se pode ter uma idéia do desenho que vai sair dali.

Tinturas: Para se obter o pigmento de tingir a linha, no sertão, muitos são os recursos naturais. As cores mais comum são obtidas com corantes vegetais extraídos em infusões ou cozimentos e/ou outros processos. Nos lugares próximos aos centros comerciais, as tecelãs recorrem aos corantes químicos: anilina ou corantes preparados (Guarani ou outro que se encontre no comércio).

Dos corantes vegetais anotamos os nomes de algumas plantas: Anil, retirado de folhas verdes do vegetal do mesmo nome depois de alguns dias de infusão em água apenas. É o azul mesmo. Urucum, semente dessa planta dá a cor vermelha. Boizinho-do-campo, dos frutos se tira corante que vai do roxo ao preto. Quaresminha-do-brejo, flor e folhas: amarelo. Chapadinha, da casca: também o amarelo. Jenipapo, da fruta verde, cor: preto. Ferrugem, a cor ferrugem, em diversos tons, se retira do óxido de ferro, da seguinte maneira: mergulham-se em um recipiente com água natural pedaços de ferro velho; com o passar dos dias, a ferrugem se desprende do ferro e vai dando cor à água. Os tons são resolvidos com maior ou menor duração da operação ou, quando muito forte, adição de mais água.

O tingimento e sua fixação: Para se fazer o tingimento e fixá-lo bem, mergulham-se as meadas na tintura desejada e leva-se ao fogo para uma boa fervura, juntando, aí, pedaços de rapadura e "decoada" (lixívia). Depois de bem fervidas, lavam-se as meadas em água corrente para retirar o excesso, de modo que, depois de feito o tecido, não se misturem as tintas, ao ser lavado, nem desbotem.

(Lacerda, Regina. Folclore Brasileiro: Goiás)

 

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