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PESCA DE ESPERA Registro de Luís Guilherme Santos Neves (1956-1957) A "Espera" é uma forma simples e curiosa de pesca fluvial praticada em vários rios capixabas. Consiste ela em se aguardar que os peixes, descendo das cabeceiras do rio, alcancem o local de pesca, também chamado "espera", onde se encontra armada a rede fixa, estendida de margem no sentido da largura do rio. A "rede armada" fica presa em compridas varas enterradas no fundo do rio. Sua parte de cima onde se enfileiram as "bóias", rodelas de madeira leve que permitam a flutuação acha-se amarrada nas varas e, por isso, sobressai muito acima da superfície das águas, como uma cortina transparente. A parte inferior da rede conhecida por "chumbo", sendo pesada, mergulha dentro da água, fazendo o "seio da rede", formação em curva devida à pressão exercida pela correnteza de encontro às malhas submersas. Embora se mantenha ainda o nome de "chumbo", foi este por medida econômica substituído por pequenos sacos de areia, com o mesmo fim de afundarem a parte de baixa da rede. Numa das extremidades da "rede armada" fica o "vigia" pescador encarregado de anunciar a chegada dos peixes. Logo que isso ocorre, avisa ele os demais pescadores. É o momento da ação pacientemente esperado. E, rápido, lançam-se eles à água, cruzando, de uma a outra margem do rio, uma segunda rede impedirá a fuga dos peixes represados. Esta outra rede, afastada da primeira uns cinqüenta metros, é presa a pequenas varas, fincadas no leito do rio. Encurralados assim, os peixes não têm por onde escapar, ficando prisioneiros dentro da "espera". Isto feito, lançando mão do "tresmalho" rede de arrasto que se puxa lentamente por dentro do rio, cobrindo-lhe a largura os pescadores iniciam, dentro do rio, o "cerco dos peixes" a partir da "rede armada". Depois de arrastar o tresmalho por todo o trecho do rio que foi cercado, arrebanhando os peixes do fundo das águas, os pescadores se aproximam paulatinamente da rede que fecha a "espera". Ali chegados, levantam o tresmalho pelas "bóias" e "chumbos", prendendo os peixes num movimento combinado, instantâneo e vigoroso. Os peixes, emaranhados nas malhas, são, a seguir levados para terra, e aí depositados no chão. Muitas vezes conforme a fartura dos peixes costuma-se "passar um segundo tresmalho, ou mesmo repassá-lo depois, se assim se fizer necessário para a pesca completa do cardume encurralado. Os tresmalhos e as redes utilizadas na pesca são, depois, lavados e limpos na água do rio e logo após, estendidas ao sol para secar, sobre os "varais" armações de madeiras fixadas na margem do rio. Na "pesca de espera" muito importante é a escolha do local onde se apresará o peixe. Escolhido dentro de certa condições, deve ser um trecho do rio nem muito raso, nem muito fundo, e, sobretudo, desprovido de pedras no leito, que entravem ou dificultem o arrastamento do tresmalho. VOCÁBULOS DE PESCADORES Registro de Hermógenes Lima da Fonseca (1949): Camboa: Cercado à beira do rio, com uma abertura pela qual entram os peixes para comer as iscas de mandioca que ali se colocam. Nessa abertura faz-se uma armadilha presa à mandioca que os peixes, dentro do cercado, comendo-a, desarmam a armadilha e descem a tábua da abertura, prendendo-os no cercado. Covo: Construído e usado da mesma maneira que o jequiá. A diferença, porém, está em que este tem abertura dos dois lados e com o mesmo afunilado nas aberturas para evitar a saída do peixe. Gruzeira: Uma corda esticada de uma vara a outra, com muitos anzóis presos a linhas de mais ou menos meio metro, pendentes nessa corda e enfileirados em distância regular. A gruzeira geralmente é colocada ao entardecer, e, na manhã seguinte, quando se vai retirar o pescado, nota-se logo o movimento das varas enfincadas no rio, produzido pelos peixes presos nos anzóis. Chama-se também curupichel e espinhel. Jequiá: Feito de cipó ou taquara, trançado, tem a forma de um zepelim, com uma extremidade como que cortada antes da ponta; nesse corte é a abertura em forma de funil, feita do mesmo material, de sorte que, entrando o peixe, não poderá sair. Minjoada: Linha com anzol amarrada numa vara e enfincada à margem do rio. Motombar: Processo de se pescar fazendo um movimento com a vara, abaixando e suspendendo a linha verticalmente para que o peixe veja a isca. Muzansa: Instrumento de pesca construído de ripas amarradas com cipó em forma de um funil sem saída. Faz o cercado no córrego ou no rio, com palhas de coqueiro muito usado para isso é a palma do indaiá deixando uma abertura, onde se coloca a muzansa, com a boca para a corrente do rio. O peixe, descendo rio abaixo, entra pela muzansa. Retira-se, então, esta terra e bate-se para cair o peixe. Pindaíba: É a vara de pescar que, em Vitória, se conhece pelo nome de caniço. Purucar: Com peneira ou pequena rede amarrada em dois paus, procura-se o peixe entre a vegetação das margens, afugentado os peixes para a rede. Sema: Época em que o peixe aparece em grandes cardumes. Zangariar: Coloca-se uma rede esticada acima de uma das bordas da canoa e bate-se na vegetação da margem do rio, para que o peixe, pulando sobre a canoa, vá de encontro à rede e caia dentro da mesma. Coleta feita por Luís Guilherme Santos Neves: Agulha: Estilete de madeira, de vários tamanhos, usado para fazer ou remendar redes de pesca. Amarelo: Espécie de madeira empregada na fabricação de canoas. Aranque: Manjuba de grande tamanho. Arrasto: Tipo de rede de pesca. Banzeiros: Ondas em série que rebentam, forte na praia. Botar rede: Lançar a rede ao mar, na pesca do arrasto. Cabeiro: Pescador que fica na praia segurando a ponta do cabo, enquanto a canoa lança a rede no mar (pesca de arrastão). Canoa de rede: Canoa usada no arrastão para lançamento da rede. Canoa do alto: Canoa que pesca em alto-mar. Capitão: Pedaço de madeira que assinala o meio da rede de arrasto. Carujar: Vibração característica que as manjubas, em cardume, transmitem à água do mar. Cipó-de-São-João: Cipó usado na feitura de samburás e cabos de rede de arrasto. Chumbeiro: Pescador encarregado de lançar o chumbo dentro da água, no ato de lançamento da rede. Chumbo: Lado da rede de arrasto cujo peso faz a rede afundar. (NEVES, Guilherme Santos. Folclore Brasileiro: Espírito Santo) |
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