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NOSSA SENHORA DA PENHA NA VIDA
POPULAR CAPIXABA Realizada a primeira festa da Penha, na segunda-feira da Pascoela, em 1570, divulgou-se rapidamente a devoção à Santíssima Virgem, na capitania do Espírito Santo. E, perante as notícias dos milagres registrados naquele pequeno templo a ermida das Palmeiras, avultaram as romagens piedosas, tanto da própria capitania, quanto das outras limítrofes. Em A vida do venerável Anchieta, de Simão de Vasconcelos, vemos "que era contínua a romaria dos devotos que faziam novenas à Virgem Senhora Nossa". Maria da Penha era o nome preferido para a primogênita das famílias capixabas. Nenhum lar espírito-santense desprezava a honra de contar, na sua prole, uma filha-Maria da Penha. E surgiam naturalmente os apelidos: - Penha, Penhinha, Penhita. Além disso, Nossa Senhora da Penha era a madrinha de todos. Quantas viagens exaustivas se realizavam para que os neófitos recebessem, na Penha, as águas do batismo, sob o olhar dulcíssimo de sua insígne protetora?! Orgulhavam-se, depois de ser afilhados de Nossa Senhora da Penha. E surgiram trovas, como, por exemplo: Nossa Senhora da Penha É madrinha de João Eu também sou afilhado Da Virgem da Conceição E os casamentos? Quem dos tempos antigos, na cidade da Vitória, não se recorda daqueles cortejos nupciais? Na frente, de véu e grinalda e o indispensável buquê de laranjeira, ia a noiva, conduzida pelo braço do genitor. Duas crianças sustinham-lhe a cauda enorme do vestido de cetim branco. Vinha, em seguida, o noivo, com o raminho de flores de laranjeiras na lapela; seus pais, sua futura sogra, os padrinhos e convidados. Concluída a cerimônia religiosa e distribuídos os botões de flores de laranjeira, trincados pelos dentes da noiva, "para dar sorte", a grinalda e o véu ficavam no convento, oferecidos à Nossa Senhora. Muitas vezes, o jovem par juntava uma fotografia a essa dádiva carinhosa. Por isso, o povo compôs: Nossa Senhora da Penha Sua capelinha cheira Cheira a cravo, cheira a rosa Cheira a flor de laranjeira De longe, principalmente os campistas, da Paraíba do Sul, vinham, em romaria, "pagar promessas". Demoravam-se, às vezes, seis meses pais e filhos, entregues aos mais rudes trabalhos: - amassar barro, cavoucar, derribar mato, desbastar madeira, transportar materiais para o cume, etc., estimulados ainda pelos exemplos de Pedro Palácios, aquele que transportara da Europa a mais preciosa gema que deveria refulgir no predestinado alcantil. Fixaram-se algumas pessoas, nos arredores da Penha. Tudo passavam para Nossa Senhora. Avultaram, assim, os legados, as doações, as heranças, de modo que o Promotor dos Resíduos e Capelas chegou a hesitar em que dispor o dinheiro de Nossa Senhora. No decorrer do tempo, cresceu o entusiasmo pelas festas da Penha, porque os sucessores de frei Pedro Palácios desvelaram-se pelo brilhantismo das solenidades, até que frei João Nepomuceno Valadares, no século XIX, introduziu o complemento dos banquetes. Com antecedência, os guardiães despachavam servos para o interior do Espírito Santo, e às províncias vizinhas, a fim de recolherem esmolas destinadas ao custeio da festa. Resultava dessa propaganda a concordância dos romeiros vindos de todos os recantos, portadores de oferendas, ao passo que os síndicos, localizados nos municípios, enviavam generosas esmolas. E tão importante se reconhecia "ir à Penha", no dia da festa que se apontavam, com recriminação, os faltosos a esse dever dos capixabas. Por isso, no crescendo dessa devoção popular a Nossa Senhora da Penha, surgiu a lei nº 7, de 12 de novembro de 1844, que declarava de grande gala e, portanto, feriado em todas as repartições públicas, o dia da festa da Penha. Refere-nos Gomes Neto, em As maravilhas da Penha, que, interpelado pelo Parlamento sobre a sanção dessa lei, cuja expressão grande gala foi ali ridicularizada, o presidente da província, dom Manuel de Assis Mascarenhas, respondeu que os espírito-santenses tê-lo-iam fulminado com os raios da execração pública, se tivesse impedido esse voto dos deputados provinciais, - tal era a exaltada devoção do povo à Nossa Senhora. Vila Velha enchia-se de uma população provisória e mista: - devotos, curiosos, romeiros, turistas, aventureiros, etc., enquanto Vitória ficava, mais ou menos deserta. E sobrava a exploração dos proprietários, naquele lugar, para a hospedagem dos recém-chegados, embora se notassem gestos generosos de famílias hospitaleiras. São João da Barra e Campos concorriam com o maior contingente de festeiros que, por mar e, em caravanas, afluíam à pequena vila florescente aos pés da montanha privilegiada. Famílias abastadas fretavam barcos, e traziam bandas de música, inteiradas por pessoa da sociedade; cumpriam o voto de tocar, ou cantar no coro, durante a festa de Nossa Senhora da Penha. Mas, dirá o leitor em que consistia essa decantada comemoração religiosa? De início, uma novena de preces, à tarde, completada pelas vésperas solenes, missas, desde as quatro horas até as nove, no dia ansiosamente esperado, sendo a última cantada e com um sermão de maravilhas. Ao meio-dia, espocavam os fogos! Era o delírio da multidão. Seguia-se o banquete oferecido às autoridades e aos festeiros. À tarde, as vésperas encerravam, com o te deum, a parte religiosa. Havia ceia regada a vinho puro e divertida pela música, dança e por outros folguedos até meia-noite. Lanternas iluminavam o templo e fogueiras crepitavam, na ladeira. Todas as casas de Vila Velha ostentavam luminária, na frontaria, enquanto lindos fogos de artifício brilhavam no céu da Penha e o povo delirava: - Viva Nossa Senhora da Penha! Viva a Penha! E surgiam trovas, poemas e sonetos, porque, de par com as dádivas, as solenidades, os fogos e o banquete, expandiam-se os devotos divulgando suas produções poéticas. As trovas encantavam o povo: Nossa Senhora da Penha Onde foi ela morar? Em cima daquele monte Para o seu povo olhar Nossa Senhora da Penha Poderosa intercessora Diante do vosso filho Patrocinai-me, Senhora! E nessas romagens festivas, que abalavam todas as fibras do coração humano, um poeta escreveu, na praia, o nome da Virgem da Penha. Logo, o arrojo de uma onda varreu aquela inscrição habilmente modelada, na areia. Apressou-se, então, o vate inconformado a compor um mote, depois, glosado: Teu nome! Teu nome escrevi na areia Ao pé do vizinho mar As mesmas ondas vieram Teu nome santo adorar Com devoção, com vanglória Fui te ver, oh! Penha, um dia Pois teus milagres ouvia Contar-se, com pasmo e glória Teu templo vi que a história Relata, com epopéia De Vila Velha (ou aldeia) Saltei na praia afamada E antes de ter à calçada Teu nome escrevi na areia Que maravilha excelente! Justos céus! Eis vem do prado Eis surge do mar salgado Sacra turma, alta e reluzente Que adorar vinha contente Seu sacro nome, sem par Nome excelso a singular Teu santo nome bendito Que eu devoto tinha escrito Ao pé do vizinho mar Subo o cume, sem demora Da rocha onde está seu templo Nele oh! Virgem te contemplo Tal qual como o Céu te adora Vejo enfim como Senhora De tudo os seus te fizeram Pois até letras escreveram Minhas mãos vis e indignas Que adorar, como divinas As mesmas ondas vieram E tudo isto ainda é nada À vista das maravilhas Que tudo nos astros brilhas Virgem Mãe, esposa amada De Deus dos céus adorada Grandes coisas tem que obrar Por isso, te vejo dar As nações suas riquezas E, pelas suas grandezas Teu nome santo adorar A 27 de outubro de 1640, rechaçados na Vila da Vitória, os holandeses fortificaram-se em Vila Velha; mas, dia 2 de novembro, foram atacados e desalojados pelos capitães Adão Velho e Gaspar Saraiva, auxiliados pelo capitão-mor João Dias Guedes. Lendas, trovas e poemas foram os troféus que os capixabas conservaram dessa luta para a defesa do seu domínio. Conta-se, por exemplo, que os holandeses tentaram escalar o monte da Penha. Retrocederam, porém, porque se lhes deparou extraordinária visão: - o santuário tranformava-se em poderoso castelo defendido por esquadrão de soldados, enquanto, a pé e cavalo, descia muita gente, com as armas luzentas e bem preparadas. Entretanto, a ermida estava deserta e a própria imagem de Nossa Senhora, fora removida cautelosamente para o convento de São Francisco, em Vitória. O povo logo imaginou: Nossa Senhora da Penha Tem soldados a valer Que lhe deu Nosso Senhor Pro seu povo defender Nossa Senhora da Penha Tem um manto de alegrias Deus lhe deu os seus soldados Pra defender a baía Nossa Senhora da Penha Tem um manto de alegria Foram os soldados que deram Quando vieram da Bahia (alusão aos que foram com Salvador Corrêa de Sá e Benevides; voltaram protegidos pela Virgem da Penha) Passados alguns anos, noutra investida sobre a ermida das Palmeiras, os holandeses levaram o Menino Jesus para Pernambuco. Logo surgiu outra criação popular: Nossa Senhora da Penha Tem janelas para o mar Para ver seu bento Filho Que, de certo, há de voltar! Nomeado guardião do São Francisco, em 1639, frei Penha: reformou a ermida das Palmeiras, tranformada, então, em capela-mor; ampliou a sacristia; e dirigiu o calçamento da ladeira, que foi dividida em lances, entremeados de vãos. Logo o povo cantou: Na ladeira do convento Tem um cravo pra se abrir Eu quisera ser sereno Para no cravo cair Outras vezes, o desânimo conseqüente do sacrifício da escalada inspirava uma súplica: Fui ao convento da Penha Todos subiram, eu fiquei Dai-me a mão, Nossa Senhora Que eu também subirei Ou qualquer indireta, algum gracejo indesejável: Lá vem a lua saindo Redonda como um vintém Nossa Senhora da Penha Dai vergonha a quem não tem Mas, em qualquer tempo, seja nos dias festivos ou comuns, quem vai ao convento da Penha guarda uma recordação singular, indefinível, que o povo traduz sempre numa trova, reflexo dos seus sentimentos: Fui ao Convento da Penha Visitar a Mãe querida Agora posso dizer Que já fui ao Céu, em vida! (LIRA, Mariza. Estudos de folclore luso-brasileiro) |
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