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QUEIMA DO JUDAS O boneco que representa o diabo, grotesca figura de 1,70 m de
altura, com cabeça de traços bem acentuados e dois enormes chifres, tendo as mãos e os
pés apenas com três dedos, e na mão direita carrega um tridente com pontas voltadas
para baixo. Completa a figura um enorme rabo arrebitado na extremidade, e um par de asas
como as de morcego. Suas vestes são vermelhas, e, no peito, três botões brancos,
dispostos verticalmente. No pescoço uma gravata borboleta e na cintura um cinto. Os
braços e pernas estão dobrados em posição de abraço, uma vez que, ao cair do topo do
poste, onde está fixado, para encontrar o Judas, permanece com este abraçado,
balançando no ar.
O boneco que simboliza o Judas, é colocado em pé sobre uma pequena prancha na parte
inferior do poste, a um metro do solo, mais ou menos. Na cabeça, tem cabelos e barbas
pintados, tendo seu corpo revestido por uma longa bata azul, que vai até os pés. Uma
faixa vermelha, cruza do seu ombro esquerdo para o lado direito até a cintura, daí
descendo. Os braços cruzados na frente do corpo, e, na mão direita, colocada sobre o
braço esquerdo traz um saquinho, onde antigamente colocavam-se moedas. Há uma cordinha
no meio do Judas, que lhe serve, tanto para cinto, como para mantê-lo preso ao poste. Há
vinte anos passados, quando do estouro dos bonecos, as crianças corriam para apanhar as
moedas que se esparramavam pelo chão. O Judas, se bem que da mesma altura do Diabo, dá
impressão de ser maior.
Fogos
O material pirotécnico é encomendado a fogueteiro no bairro de São Mateus, em São
Paulo. Quem dispõe e prepara, na praça Padre Miguel, em frente à igreja matriz, é o
próprio Zico Gandra com seus auxiliares. Colocam-se quatro pequenas bases de cinqüenta
centímetros de altura, nas quais se fixam tubos de ferro. O primeiro e o segundo tubo
estão ligados por uma vara de bambu e, daí em diante, por um arame até o quarto tubo,
continuando até o poste, a ligação, através de um longo estopim. Poste e base são
pintados de amarelo, azul e vermelho. Tudo isto, numa extensão de vinte
metros, onde são colocados bombas e assobios, que darão grande efeito pirotécnico ao
espetáculo. É tradição incluir duas, três, quatro mosquetarias, com dez, vinte,
trinta ou quarenta pequenas bombas, e três ou quatro grandes. A cada quatro metros, há
uma parada, onde se dispõem os fogos de assobio.
Percorridos os vinte metros, o fogo continua pelo estopim, subindo no poste até encontrar
uma bifurcação, seguindo-se daí, um estopim para o Judas e outro de igual tamanho para
o Diabo, pois um estopim não deve queimar mais rapidamente do que o outro. Ao chegar no
Diabo, o estopim entra pelo rabo, e, no Judas, por um orifício que é aberto no pé
esquerdo.
Uma das primeiras descrições da queima do Judas, que temos
conhecimento, é a de Jean-Baptiste Debret, que assim a descreveu em seu livro Viagem
pitoresca e histórica ao Brasil, p. 197:
"Mais engenhoso ainda é o Diabo amarrado pela cintura, de modo a escorregar pela
corda do Judas, e suspenso três ou quatro pés acima da cabeça do boneco por meio de uma
corda que se distende repentinamente em conseqüência do estouro de uma bomba e deixa
cair o carrasco a cavalo em cima do pescoço da vítima". E a seguir conclui:
"Tudo termina afinal com uma última explosão, que lança para todos os lados
mil parcelas inflamadas, logo reduzidas a cinzas". Há também anotações
gráficas de Debret identificando esta queima.
Zico Gandra (Amadeu Ferreira Gandra Filho)
Homem simples, artista popular, folclórico, conta-nos que seu primeiro Judas foi feito,
quando tinha doze anos, e continuou durante dezoito anos, e depois, "por motivo
que não era mais negócio" deixou de fazê-lo. "Como apareceu outro
fogueteiro que queria pegar para fazer então eu deixei, o nome desse fogueteiro era João
Laurindo, um bom fogueteiro da zona rural aqui da cidade", afirma Zico Gandra.
De uns quatro anos para cá recomeçou seu trabalho por motivo de doença de João
Laurindo, e para isto conta com quatro ajudantes para a montagem de todo o espetáculo
pirotécnico que requer um cuidado especial e é muito demorada. Toda a festa gira em
torno da queima de fogos, não pode haver imprevistos.
Da preparação e confecção dos bonecos
O barro é apanhado na cerâmica e com ele são feitas as formas que servirão de molde
para as cabeças, mãos e pés. Depois de prontas e secas, cortam-se pequenos pedaços de
papel, que são molhados e colocados sobre as mesmas. Assim são feitas em três ou quatro
camadas de papel molhado, para em seguida usar na colagem do papel a cola de polvilho
cozido por ser a mais prática neste tipo de trabalho. Quando cabeças, mãos e pés
estão prontas e secas, corta-se ao meio, retira-se das formas e colam-se novamente as
emendas. Ficam ocas, como: "o tipo daquelas bonecas de papelão antigas",
segundo nos disse Zico Gandra.
Para a pintura são usados guache, esmalte ou mesmo tinta de parede. Às vezes há a
colaboração de pintores profissionais. Por fim, quando pintadas, as cabeças, mãos e
pés, são encaixados numa armação de madeira para dar a aparência de corpo. A
indumentária é feita pelas filhas de Zico Gandra e toda costurada em "faillete",
dando, desta maneira, melhor aparência.
Figuras
Na parte interna dos bonecos estão colocadas as bombas, havendo em continuação um estopim de mina, de um metro de comprimento, que dura um minuto,
onde durante este tempo, entra em funcionamento o mecanismo em que estão presas as
figuras do Diabo e do Judas. O Diabo é pendurado ao poste por um gancho, passando uma
corda do gancho por uma carretilha presa numa armação de madeira na parte superior do
poste, descendo para a cabeça do Judas, onde há também outro gancho, no qual a corda
termina. Para perfeita disposição das figuras e normal seqüência, a corda passa pela
figura do Diabo, em frente a seu nariz avantajado, dentro de um anel preso ao peito, para
que não saia do prumo. O Diabo, ao descer, leva o Judas a subir, até a metade do poste.
Aí se encontram, balançam alguns segundos e explodem, voando, para todos os lados,
pedaços de papel, pano e madeira, seguindo-se verdadeira manifestação de alegria
daqueles que aguardavam com ansiedade para apreciar a queima.
Festa folclórica
Toda a cidade se engalana, para apreciar a queima do Judas. A praça Padre Miguel fica
inteiramente lotada, não faltando os vendedores de balões, sorveteiros e pipoqueiros,
que misturados à multidão, de jovens, crianças e velhos, vivem a expectativa de um
maravilhoso espetáculo. Não há extravasamento forçado, mas a expressão espontânea de
aceitação coletiva de uma verdadeira festa folclórica.
Antes do início do espetáculo, vem para o largo da Matriz a banda de música, a
Corporação Nossa Senhora do Carmo, que toca uma série de dobrados. Isto ocorre até
começar o repique dos sinos da Igreja, anunciando o meio-dia do Domingo de Ramos, momento
da queima do Judas.
Paróquia São Judas Tadeu
Às dezoito horas do domingo, de Ramos (sic!), repete-se o mesmo espetáculo assistido no
largo da Matriz, para provar a grande aceitação coletiva espontânea. Apenas com uma
característica a mais: ao lado dos bonecos, coloca-se um pau-de-sebo com prendas, o que
constitui a alegria da garotada. Há vinte ou trinta anos passados, o pau-de-sebo também
aparecia no Largo da Matriz, onde havia uma revoada de pombos.
Há quarenta anos, na cidade de Salto de Itu, este mesmo espetáculo era promovido, tendo
como responsável o fogueteiro Urbano, que montava os bonecos e fazia os fogos. Quem
entretanto modelava as cabeças, mãos e corpos era José Joaquim de Araújo, avô de Zico
Gandra, o artista popular de hoje.
[1972]
(J. Rissin. In Revista brasileira de
folclore, ano XII, nº 33) |


Veja também:
O viajante e artista francês
Jean-Baptiste Debret descreve suas impressões sobre o Judas no Sábado de Aleluia, no Rio
de Janeiro do século XIX.
Judas Ahsverus. A tradição dos
seringueiros do Alto Purus no Sábado de Aleluia, em um texto de Euclides da Cunha.
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