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Por dentro do Cariri Em companhia de Anastácio Mendes Dantas, Zé Limeira
embrenha-se pelo Cariri, microregião ainda desconhecida do poeta. Cigarro-de-palha ao
canto da boca, viola e matulão a tiracolo, aceita o
desafio da estrada um percurso de quase duzentos quilômetros. Vai beber outros
luares, abrir outras cancelas, ouvir outros chocalhos, conquistar outro público.
Limeira já era um nome familiar àquela gente inculta que não fazia idéia da mimagem física do cantador, mas
detinha na "cachola" dezenas de seus versos que rompiam distâncias
interestaduais através do de-boca-em-boca.
Em 1940, cantando numa bodega de Teixeira, manifestara seu desejo:
Seu Inácio da Jurema,
Vorte pra seu Cariri
E diga ao povo de lá
Que um dia eu vou ali
Com os anjo tudo a meu lado,
Pra vê criação de gado,
Do jeito que vou daqui.
Onze anos depois abraçava os pacatos caririzeiros pelos caminhos da terra sofrida,
derramando ilusões na terra acolhedora, a colher no olhar de poeta a poesia de tudo.
Zé Limeira e Anastácio chegaram no local da peleja com o pôr-do-sol.
A matutama, beneficiada por uma lua cheia que transformava os pés de facheiro em
fantasmas de safira, empreendia grandes caminhadas, a cavalo e a pé, para conhecer o poeta
do absurdo. E, quando a noite já podia mais do que o dia, a casa grande da fazenda
Poço do Juá começou a ficar pequena.
Às vinte horas hora de cantoria as violas motivavam a
inspiração dos poetas, fazendo cócegas na alma do povo, sacolejando o ambiente. Depois
de meia hora de sextilhas (esta é a praxe) é
Anastácio quem inicia a glosação do primeiro mote, atendendo à professora da
redondeza:
É lindo queimar-se as flores
No santo mês de Maria
No mês de maio a novena
Tem grande veneração,
No Brejo, Agreste e Sertão
É muito honrada esta cena
Rosedal, rosa e verbena
Se vê brotar todo dia...
O aroma que a rosa cria
Nos faz esquecer as dores...
É lindo queimar-se as flores
No santo mês de Maria.
Limeira, alvo de todas as atenções:
Você pra mim é menino,
Queimo flor uma porção,
Boto fogo em barbatão
Cercado de arame fino.
No pagode do suíno,
Quando poicas grita e chia,
Corre Mané e Sufia
E até os agricultores...
É lindo queimar-se as flores
No santo mês de Maria.
Aparece outro mote:
"Viva a moça mais bonita"
Anastácio:
Amigos, no meu sertão
É onde existe menina
Mais bela que a bonina
Do jardim do coração,
Nas festas da apartação,
Quando o vaqueiro se agita.
Derruba o boi e faz fita
Por causa duma donzela
E grita, olhando pra ela:
Viva a moça mais bonita.
Limeira:
Já namorei uma Rosa
Que era nega cangaceira,
Gostava de fazê feira,
Tinha uma boca mimosa
Mais, por modo dessa prosa,
Escrevi pra Santa Rita...
Ronca o pombo na guarita,
Passa um poico no chiqueiro,
Diz o bode do terreiro:
Viva a moça mais bonita.
Aquela altura, o poeta do absurdo já conquistara, de
maneira definitiva, o público do Cariri. Em vão, Anastácio se esforçaria para
suplantá-lo. Generalizara-se um verdadeiro vivório em louvor ao homem de
Teixeira.
"Diz o Novo Testamento", mote dos mais pueris, aparece logo em seguida, a pedido
do dono da fazenda, e é Limeira quem sai na frente:
Numa certa ocasião
Eu ia por uma estrada,
Junto com meu camarada,
Escanchado num gangão,
Ali, naquela fração,
Estourou um pé-de-vento,
Eu me apiei do jumento,
Quebrei o chapéu na testa,
Quage me dava a molesta,
Diz o Novo Testamento.
Ninguém decorou a glosa de Anastácio e a seguir foi captada esta outra de Limeira:
Um dia, no Paraíso,
Na velha casa de Adão,
Jesus, que faz um sermão,
Foi um Dia de Juízo.
São Pedro, que tava liso,
Ali vendeu um jumento
Por vinte e quatro e quinhento,
Pra comprá cumiduria...
Foi muito pão nesse dia,
Diz o Novo Testamento.
A platéia exige um desafio e surge um mote tira-teima, ou pé-de-briga em versos
decassílabos:
"Você hoje me paga o que tem feito
Com os poetas mais fracos do que eu."
Anastácio:
Zé Limeira, você cuide em rezar
Que preciso hoje aqui dar-lhe um surrote.
Apresento as virtudes do meu dote
Pra você aprender a me honrar.
Se você resolver me acompanhar,
Diga logo a esse povo que perdeu,
Um fantasma chegou, lhe interrompeu,
Atraiu sua voz, o verso e o peito...
Você hoje me paga o que tem feito
Com os poetas mais fracos do que eu.
Limeira revida sem pestanejar:
Sou um nego um bocado esbagaçado,
Sou o vatis das glória desta terra,
Sou a febre que chama berra-berra,
Mastigando eu sou cobra de veado.
Sou jumento pru fora do cercado,
Sou tabefe que dero em seu Lameu...
Se tivé bom guardado bote neu,
Seu caminho de bonde ruim, estreito...
Você hoje me paga o que tem feito
Com poetas mais fracos do que eu.
Anastácio:
Cantador sem origem, sem ciência,
Miserável, lebrento, pé de peia,
És miséria da guerra da Coréia
Seu corruto, ladrão da consciência.
Castigado da santa Providência,
Que não honra o que Cristo santo deu,
Foste tu, imbecil, o fariseu,
Quem é bom dizes tu que tem defeito...
Você hoje me paga o que tem feito
Com poetas mais fracos do que eu.
Limeira:
Zé Limeira onde canta, todo mundo
Vai olhá bem de perto a sua orige,
Já cantei no sertão, no Céu da Virge
Sou doutô de meisinha, furibundo.
Viva o reis, o juiz, Pedro Segundo.
Sou a cobra que o boi nunca lambeu.
Sou tijolo da casa de Pompeu,
Peripécia da filha do prefeito...
Você hoje me paga o que tem feito
Com poetas mais fracos do que eu.
A sugestão de outro mote, escrito por um estudante, põe termo à briga e a cantoria toma
um rumo de certo romantismo:
Vou fazer serenata na calçada
Da menina que amei na minha vida.
Anastácio improvisou:
Venho amando do tempo da infância
Uma linda menina que ainda prezo,
Inda quase maluco eu não desprezo
Sua imagem e a sua rutilância.
Desprezá-la seria ignorância.
Minha deusa bonita e preferida
Que por Deus para mim foi escolhida,
Minha estrela brilhante e consagrada...
Vou fazer serenata na calçada
Da menina que amei na minha vida.
Limeira:
Prá fazê serenata eu sou bambão,
Toco em frente, de banda, quina e lado.
Na viola eu até toco um bocado,
Sou ribombo e zuada de truvão.
Muitas vezes eu decanto uma canção
Lá no açude de Santa Margarida.
Eu me lasco mais faço uma ferida
No toitiço da velha madrugada...
Vou fazer serenata na calçada
Da menina que amei na minha vida.
A glosa abaixo foi o último repente limeriano memorizado pelo povo, na noite que pertence
ao calendário caririzeiro:
Quando a guerra zuou dentro da França
Eu ouvi os estrondo do sertão.
Gosto muito de fava e de feijão,
A muié que eu quiri tinha uma trança.
Japonês e alemão entrou na dança,
As estrada do Brejo é tão comprida
É pecado matá vaca parida,
A Alemanha da China tá tomada...
Vou fazer serenata na calçada
Da menina que amei na minha vida.
Três dias depois, Limeira e Anastácio encontram-se na fazenda Pitombeira, a alguns
quilômetros do poço do Juá, onde expressiva multidão comprime-se na sala ampla e no
terreiro enluarado. Anastácio Dantas arremata a primeira sextilha com esses versos:
Eu sou um guerreiro forte
Que toma qualquer fronteira.
Limeira, pegando a deixa:
Meu nome é José Limeira,
Cantadô veio moderno
Da palagana do vento,
Dos quelés do Padre Eterno,
Sou nego de fim de rama
Da castrapole do inverno.
Um vaqueiro apaixonado tira do chapéu de couro e, com o respeito e a humildade próprios
dos vaqueiros nordestinos entrega, com a licença do fazendeiro, um pequeno papel aos
cantadores, em que se lê:
"No coração de Maria."
Limeira foi rápido:
Um dia eu fui à novena,
Na casa de Dona Rita,
Moça de laço de fita,
Fuá de gogó de ema.
Chegou Dona Madalena
Tia da nega Luzia,
Quando amanheceu o dia
Fui pra beira do riacho,
Um burro pulô em baixo,
No coração de Maria.
Os repentistas pisam, agora, um novo chão poético esbanjando rimas nas tradicionais
estrofes do oito pés a quadrão, estilo muito popular em todo o nordeste. Anastácio
manifesta-se:
Eu sou um cantador novo
Que agrada bem ao povo.
Com saudades me comovo,
Sinto mesmo uma aflição.
A flor que rola no chão
Deixa o aroma somente,
Na hora do sol poente,
Lá vão meus oito a quadrão.
Limeira entra:
Tu sois protestante e crente,
Água, riacho e vertente,
Quando a chuva desce quente
Enrolada num trovão,
Se alarma todo sertão,
Cururu desce nos eito,
Eu vou falá com o prefeito
No oito pés a quadrão.
Anastácio:
A natureza é incrível,
Faz a terra no seu nível
Girar de modo impossível
Causando admiração...
O relâmpago, o trovão,
Arquivam-se pelo espaço,
Ligados pelo mormaço,
La vão meus oito a quadrão.
Limeira:
Sou um nego do cangaço,
Brigo de perna e de braço,
Com a ingrizia que eu faço
Assombro qualquer cristão...
Eu vou canta no Japão
Lá dos Estados Unidos,
Dá quarenta e três gemidos
Nos oito pés a quadrão.
O quadrão foi a chave da festa, quando os primeiros clarões da aurora, derramando-se
pelo verde grosso da caatinga, que despertavam os galos da Pitombeira. Os poetas retornam
à Fazenda Poço do Juá, apresentam-se noutras propriedades da região e rumam para
Campina Grande, onde cantam em plena feira. Emboladores de coco recolhem seus ganzás e
passam a ouvir a polêmica rimada dos profissionais da viola que dissertam sobre os
mistérios da noite.
Anastácio dá o princípio:
Na noite nós vemos coisas
Que eu acho grande mistério:
A melodia do vento
Tem um som brando e funéreo,
Retratando a voz sagrada
Do nosso Pai e império.
Pegando a deixa, Limeira atira-se:
Um dia, no cemitério,
Tava cum meu camarada
Falando em cavalo gordo
E besta véia amojada,
Pois tudo aquilo é segredo
Da noite e da madrugada.
Anastácio:
Acho certo, camarada,
mas falaste inconsciente,
Pois o segredo da noite
Disso tudo é diferente...
Existe coisas noturnas
que assombram qualquer vivente.
Limeira:
Uma vez, em São Vicente,
Quando uma vez eu cantava.
Bem cedinho, à meia-noite
Quando de dia eu falava,
Passô uma besta-fera
E meus versos decramava.
Tendo Anastácio asseverado, ao término de uma sextilha, que o então presidente Getúlio
Vargas preocupava-se em proteger a pobreza, o poeta retrucou:
Ele protegeu o pobre
Mais deixou José Limeira.
Gafanhoto ferviando,
Silibrina corredeira,
Currá da polipogente,
Rataio de fim de feira.
A réplica perdeu-se em meio ao vozerio desencontrado da feira, foi captada, todavia, a
resposta de Zé Limeira:
Getúlio foi homem bom,
Fazia carnificina,
Gostava de comê fava
Misturado com risina,
Sofreu, mais ainda foi
Delegado de Campina.
Anastácio pára a viola, exausto, e fica ouvindo o companheiro derramar-se em versos:
Na serra do cai-cai-osso
Encontrei um bode moço
Cum chucaio no pescoço.
Me viu mais ficou em pé.
Eu fiz um querreque qué
Pra vê se o bode corria.
Ele fez que não me via,
Eu me escorei num mufumbo,
Lá vai caroço de chumbo
No toitiço de Maria.
Viajou Nossa Senhora
Naquele passado dia,
Perto duma travissia
Descansou sem ter demora.
Cortou de pau uma tora
Debruçada sobre o vento.
Ali, naquele momento,
São José sartou do jegue,
Jesus passou-lhe um esbregue.
Diz o Novo Testamento.
Gritou Dom Pedro Primeiro
No tempo da monarquia:
Jesus, filho de Maria.
Trovão do mês de janeiro,
São Pedro sendo o porteiro
Da capela de Belém.
Thomé comendo xerém
Com sarapaté de figo.
Se eu não me casar contigo.
Não caso com mais ninguém.
O poeta José Vicente da Paraíba chegava inesperadamente, quando
Limeira abria a primeira ruptura na baionada, sob o pretexto de "molhar a
goela". Pontificando agora ao lado de José Vicente, o poeta do absurdo
continua a ser aplaudido pela multidão que se avoluma, circulante, em torno da barraca. O
talento de Agnelo Amorim extrapola neste momento romântico:
São frios, são glaciais,
os ventos da solidão.
E da inspiração de José Vicente, num relance:
Quando se sente saudade
Duma pessoa querida,
Dá-se um vazio na vida
E dói esta soledade...
Ninguém suporta a metade
Da dor do meu coração,
Lembrando o aceno de mão
Do amor que não voltou mais...
São frios, são glaciais.
Os ventos da solidão.
Zé Limeira:
Conheço a curva do vento
No calô da marizia,
Quando amanheceu o dia
Fui acordá o jumento.
O mocotó de São Bento,
Espora, freio e gibão...
Por trás do Monte Simão
Residia Ferrabraz...
São frios, são glaciais
Os ventos da solidão.
Ronaldo Cunha Lima marca sua presença com o romantismo do mote que foi glosado apenas por
Zé Limeira:
Nos olhos de minha amada
Brilham estrelas de amor.
O navi navega só
Como a muié nos espeio
Pru dentro do mar vermeio
Que sai lá no Moxotó
O poeta vive só.
A lua tem mais calô,
O jardim logo murchô,
Quage morri da patada...
Nos olhos da minha amada
Brilham estrelas de amor.
A cantoria tomou o rumo de sua verdadeira autenticidade, com a chegada do mais legítimo
discípulo de Zé Limeira, o limeirianíssimo Serra Branca. José Vicente entrega-lhe a
viola para que se inicie, entre mestre e aluno, um desafio em Mourão, cujos repentes são
aqui reproduzidos graças à memória do poeta Luiz Amorim:
Limeira
Sou Zé Limeira falado
Do véio Sítio Tauá.
Serra Branca
E eu me chamo Serra Branca,
Cantando aqui, acolá.
Limeira:
Zé Limeira quando canta,
Credo em cruz, agoi as pranta,
Lê-é-lé e lê-a-lá.
Serra Branca
O vento assopra no á.
Cabra ruim só vai na peia.
Limeira:
Se aprepare para ouvi
Uma história muito feia.
Serra Branca:
Lê-a-lá e lê-u-lu
Isso quer dizê beiju
Feito de massa de areia.
Limeira:
Quando falá em areia
Se alembre do lhá-gá-lhá.
Serra Branca:
Meu mestre, não se abrufele,
Deixe de me arrecramá.
Limeira:
De arrecramar-lhes não deixo,
que fartô o circonfrecho
Aprenda a pirnunciá.
(TEJO, Orlando. Zé Limeira, poeta do absurdo)
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Caboclo de estatura avantajada, desinibido e
desabusado, um misto de menestrel e jagunço, Zé Limeira baixou à terra em 1886, nos
Contrafortes da Borborema.
Filho da noite, amante das estradas, pai do absurdo, seu porte de baraúna altaneira humilharia os
gladiadores dos Cesares. Carismático, sorridente, comunicativo e bonachão, mas sem
perder a compostura do sertanejo legítimo, impressionava ao primeiro contato. Uma figura
cabalística cujo comportamento do homem e do poeta retratava a própria
fidelidade ecológica.
Trajava mescla rústica de um azul vivíssimo a constratar com o vermelho aceso da flanela
que lhe envolvia o pescoço, onde se via um tosco anelão de pedra azul pendurado.
Exageradas lentes pretas guarneciam os olhos de carvão líquido ao tempo em que sombravam
o rosto anguloso, dando realce à perfeição dos dentes.
Quinze anéis grotescos reluziam nos dedos possantes e ágeis, enquanto dezenas de fitas
multicores esvoaçavam nas clavículas da viola festiva, feito bandeirolas ao vento. Não
se separava de sua rede-matulão e da bengala de aroeira que mais lembrava uma
estaca.
Nunca utilizou o automóvel ou outro meio de transporte motorizado. A vocação de
andarilho afastava qualquer hipótese. A pé venceu o mapa da Paraíba e deslocou-se ao
Ceará, ao Rio Grande do Norte, a Pernambuco e às Alagoas. Livrava-se de feras e
malfeitores ostentando no peito o rosário que recebeu das mãos do padrinho padre Cícero
do Juazeiro.
Ainda quase menino trocou a enxada pela viola, obedecendo ao chamado interior. A sorte,
boa e sábia, desviou-lhe a Carta do ABC. E assim, protegido pelos bons fados,
perlustraria as planuras da vida, homem ditoso e autêntico. Pois, com sua voz trovejante
de excelente barítono, a dicção perfeita e um constante e largo sorriso. Zé Limeira
teve o domínios dos auditórios sertanejos: de 1901 a 1954 disputou, sem trégua, com
todos os grandes repentistas nordestinos e terminou festejado nos círculos rurais como
vencedor de todas as pelejas.
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