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O pião ou pinhão é um brinquedo de madeira, cônico ou piriforme, feito em torno, de tamanho, formato e denominações diferentes, tendo no ápice ponta de ferro afiada, que serve de pé. Assim, há piões alongados, bojudos, grandes – estes chamados de mamonas – outros pequenos, conhecidos pelo nome de carrapetas. Estas não são mais que as cabeças dos bilros de fazer renda de almofada, nas quais se conservar pequena ponta da própria madeira.

Com exceção da carrapeta, que é toda de madeira, rodando graças a um rápido giro feito sobre a ponta, entre os dedos polegar e indicador, todos os outros piões são providos de uma ponta de ferro, mais ou menos afiada, que serve de pé, colocada no ápice, sobre o qual rodopia pelo impulso de um cordão, o pião, atirado no chõ, gira com mais ou menos velocidade, conforme a violência com que e jogado. Na gíria do jogo, costuma-se dizer que está dormindo, quando roda com velocidade. Fica sereno, o que significa a mesma coisa.

O jogo do pião, muito do gosto dos meninos de Pernambuco, particularmente do Recife, tem suas regras, convenções e terminologia rica de gírias.
Do brinquedo participam vários meninos, de quatro a seis, na maioria das vezes, cada qual munido de seu pião. O jogo deve processar-se em chão de terra batida, onde não haja pedras. Antes de começar, um dos parceiros, de pé descalço, com o calcanhar fincado no chão, dá um giro com o pé meio arqueado, os dedos encurvados para baixo, de modo a formar no chão um círculo completo. No pequeno círculo circunscrito, que o calcanhar fez, coloca-se um pião velho quebrado, para servir de alvo. É a carniça. Cada um, por sua vez, visando o alvo, tenta picá-lo, jogando o pião. O que consegue picá-lo tem a preferência da saída. Quando dois ou mais conseguem atingir a carniça, tem o direito de sair em primeiro lugar o que mais estrago provocou. De acordo com a aproximação do alvo, seguem-se os demais.

Vale a pena chamar atenção para as particularidades técnicas no jogar o pião. Há duas maneiras ou técnicas principais bem características, chamadas de pontos, no arremesso do pião. O fincão, que só os bem treinados são capazes de executá-lo, arremessando com violência o pião sobre a carniça, chegando a lascá-los em duas bandas, quando a acerta, e o ponto de camarão, que caracteriza os iniciante, ainda sem prática no jogo. No ponto fincão, o parceiro, depois de enrolar fortemente a enfieira, prende a extremidade no dedo indicador, levantando o braço e arremessando o pião, com o ápice para cima, com muita força, num gesto brusco fazendo-o cair de ponta no chão. É nesta ocasião em que o pião dorme, fica sereno, assobia levemente, permitindo que o jogador o apanhe, estendendo a mão com o dorso virado para baixo, de modo a colhê-lo, rapidamente, entre os dedos indicador e médio. O pião escorrega para a palma estirada da mão, onde dança suavemente.

No ponto de camarão, o jogador inexperiente, depois de enrolado o pião, prende a extremidade do cordão no dedo indicador, colocando-o de ponta para baixo, sacudindo-o para frente e puxando timidamente a enfieira, que se desenrola devagar, fazendo com que o pião dance meio bamboleante, sem força, em pouco tempo arriando. Dificilmente há tempo para apoiá-lo na palma da mão.

Num caso ou noutro – no ponto de camarão com mais frequência – pode acontecer que o jogador falhe, e o pião, em lugar de cair de ponta para baixo, cai de bojo ou de ponta para cima. Rolando no chão violentamente. Diz-se que o jogador matou cobra quando assim acontece.

Na brincadeira do pião, em geral, só participam os bem traquejados, aqueles que jogam com performance. Existem excelentes jogadores de pião, jogadores que são capazes de verdadeiros malabarismos. Um deles: sacudir o pião no ar, apanhando-o na mão sem alcançar o chão. Outro: suspender o pião, girando no chão como cordel de modo a alcançar a palma da mão. Rodando na mão espalmada, colhido, após um ponto fincão, parece parado, tal a velocidade do giro. Diz-se que o pião está "sereno" ou "dormindo".

Começado o jogo, o que saiu em primeiro lugar atira o pião visando a carniça, de modo a arrastá-lo para um buraco, feito à distância, que pode variar, às vezes dois metros, às vezes menos, a contar da linha de saída.
Se o pião jogado não atingir a carniça ou se apenas dela se aproxima, roçando-a de leve – bojando, como se diz na gíria do jogo – o parceiro perde a vez, sendo obrigado a colocar, em lugar da carniça, outro pião.
Se o jogador acertar, pode apanhar o seu pião na mão uma ou mais vezes, conforme a força do giro, com o movimento da mão jogando-o sobre a carniça.
Em seguida, vem outro jogador, repetindo o processo, até chegar o último, caso os anteriores não tenham colocado o pião inerte dentro do buraco. Aquele que conseguir deve receber de cada um dos parceiro um pião novo ou em boas condições. Há, como é de esperar, alternativas nas convenções, que podem mudar, às vezes, até no decorrer de uma partida.

(VALENTE, Waldemar. Folclore Brasileiro: Pernambuco. Funarte, 1979)

 

 

 

 

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