


Nenhum, contudo foi pior atochador que o famoso Militão Fagundes,
coronel dos provisórios, cujas histórias divertiram a rua da Praia nos anos mil
novecentos e trinta e quarenta. De família rica, poderosa e tradicional, era
proprietário de bela fazenda em município muito distante de Porto Alegre. Aparecia
bastante na capital, onde também tinha uma residência. Seu estilo caracterizava-se pelo
comportamento sóbrio, quase austero, e pelo fato de em seus relatos fazer-se acompanhar
de algum subalterno, verdadeiro cúmplice a quem, nos momentos mais suscetíveis, indicava
como testemunha ocular. Emprestava-lhe grande credibilidade o fato de expor os
acontecimentos com um ou outro rápido detalhe. Segundo a tradição, nem mesmo o
respeitadíssimo general Flores da Cunha escapara do coronel. O fato teria ocorrido no
próprio palácio do governo, quando Militão narrava seu recente passeio a Europa. Sereno
e enfático, contou ao então interventor no estado ter visto no museu de pequena cidade
dos Balcãs um couro de lobisomem. Constava inclusive ser o único conseguido no mundo...

Durante a II Guerra Mundial, afirmava serem tantos os
casos de brigas, ferimentos e homicídios ocorridos no município onde tinha suas terras,
que a maioria dos jovens da região para escapar de tamanha violência, preferira
alistar-se na FEB e proteger-se na Itália.
Presidente do clube de futebol de sua cidadezinha, assim o coronel descreveu, no
Largo dos Medeiros, as ocorrências em jogo realizado com equipe visitante:
- ... Para alegrar a festança, contratei a banda de música. Mas pediram muito dinheiro
para se apresentar o tempo todo. Aí propus pagar a metade do preço: tocariam apenas na
hora da abertura dos portões, no intervalo do match e quando saísse um golo,
mas tanto, que no final do jogo as clarinetas estavam rachadas e os tambores furados. Os
metais de sopro ficaram em brasa; para resfriá-los, tiveram que pular o muro e fazer
fila, a fim de trazer água em baldes do vizinho. O sujeito da corneta criou papada de
tanto assoprar, o maestro ficou de braço duro e tiveram de dar oxigênio para o da tuba.
O mais interessante aconteceu com o tocador de pratos: pegou resfriado de tanto vento que
apanhou.
O coronel Militão narrava a seleto grupo, numa festa, como enfrentara certa cobra sucuri:
- ... Levantei a Winchester com todo o cuidado, fiz a pontaria, descansei
lentamente o dedo no gatilho...
Nesse instante, chamaram-no ao telefone. Quinze minutos depois, quando Militão voltou,
alguém lembrou:
- E daí, coronel, como é que terminou a história da Winchester?
Onde é que eu estava, mesmo?
O senhor ia apertando o gatilho...
Mas bah, tchê, nunca errei uma exclamou Militão.
Quando dei o tiro, foi pena pra tudo que é lado!
Determinada ocasião, pespegou tamanha mentira que o ouvinte, farto de tudo aquilo,
decidiu revidar:
- Pois o senhor sabe, coronel, uma vez eu também experimentei o revólver em um bem-te-vi
pousado numa árvore. Mirei bem e, quando ele cantou "bem.." eu, pá!, tirei o
bico dele fora. O "...te vi" ficou preso na garganta, pois não teve por onde
sair.
Militão suspirou fundo, olhou para o outro com ar triste e comentou, derrotado:
- É, há homens que atiram muito bem...
O coronel costuma encontrar-se com amigos na frente da Casa Além, na rua da Praia, quase
esquina com Ladeira. Era estimado e respeitado por todos. Certa manhã de inverno rigoroso
chegou anunciando:
- Estou vindo lá da Independência. Não vão acreditar! O frio é tanto que chega a
nevar!
Cordeiro, recém-contratado ponta-direita do Grêmio, estava chegando à cidade. Militão
comentou:
- Cordeiro? Bah, mas é claro! Conheci o pai dele, o Adalmiro Cordeiro. Foi cria minha...
Alguém esclareceu: não se tratava de sobrenome; era apelido que o jogador ganhara por
ter nascido na cidade de Cordeiro, no estado do Rio de Janeiro...
No dia do noivado da filha com um formando em medicina, o casal Fagundes ofereceu jantar
íntimo na fazenda. Era a formal apresentação do moço à família. Surgiu logo a
apreensão: e se o coronel aprontasse alguma? Recomendações expressas foram então
dadas. Não obstante Militão, muito sisudo e leve ar ofendido, tivesse concordado em
controlar-se, acharam de bom alvitre preparar também o noivo, na base do "não leves
o papai a sério, hem?, ele às vezes gosta de contar histórias" e tal.
Durante a refeição, o comportamento do dono da casa foi irrepreensível. Quando todos
levantaram, Militão paternalmente colocou a mão no ombro do pretendente e convidou-o a
sentar junto a lareira do gabinete. Serviu conhaque, ofereceu charutos e quis ficar a sós
com ele. Enquanto ambos conversavam, o resto da família cuidava-os, preocupado. O
diálogo foi comprido e durou até tarde. Na manhã seguinte, um dos irmãos da noiva
procurou o futuro cunhado e foi direto:
- O papai te aplicou alguma atochada ontem?
Não, que nada. O velho é ótimo papo. Você são muito exagerados. Não achei
nada de especial nele.
E de que vocês falaram?
Ah, generalidades. Ele contou algumas passagens de sua época de recém-formado,
quando clinicava pela redondeza, antes de trocar a medicina pela pecuária...
Enquanto o moço falava, o outro tapara o rosto com as mãos espalmadas, descendo-as
levemente até revelar o olhar angustiado, enquanto sacudia a cabeça.
- ...mas o que foi? estranhou o noivo.
É que o papai nunca estudou medicina!
Militão, em visita ao Rio de Janeiro, foi convidado para jantar solene na mansão de
milionário a quem conhecera recentemente. Terminada a cerimoniosa refeição, passaram
todos à confortável e espaçosa biblioteca. Não tardou muito e a conversa recaiu sobre
a famosa coleção de moedas do anfitrião. Tinha ele todas as peças cunhadas no Brasil,
desde a época colonial até os tempos atuais, inclusive o império. Tranquilo e
imponente, o coronel disse ser também numismata. Animado com a presença de um colega, o
dono da casa perguntou:
- O senhor também coleciona moedas brasileiras?
Não respondeu Militão, sereno. As minhas são de diversos países
do mundo, bem antigas e variadas, algumas muito raras mesmo.
E quais são elas? interessou-se outro conviva.
O senhor certamente já leu a Bíblia, é claro disse o coronel. Pois
saiba que tenho, por exemplo, um dos trintas dinheiros pagos a Judas para trair Cristo...
O coronel gostava muito de seu papagaio, andava sempre com ele no ombro, desses de
comidinha na boca. Era um pássaro inteligentíssimo; Militão surpreendera-o certa vez
ensinando a passarada falar. Acontecera no meio de uma clareira: escondido atrás das
árvores, o coronel assistira toda aula, emocionando-se porque as frases lecionadas pelo
papagaio traziam sempre referências elogiosas a ele, seu dono. Por isso, não se admirou
quando, dias depois, um passarinho passou rente à aba do seu chapéu e chilreou, largado,
antes de retomar o rumo:
- Que tal vai, Militão Fagundes?
Quando o papagaio fugiu sem prévio aviso, o coronel ficou muito triste. Certa manhã,
meses depois, uma nuvem de caturritas sobrevoava a fazenda. Numeroso grupo delas
destacou-se das demais e voou em sua direção. Quem vinha à frente do grupo? Seu
papagaio, claro. Ao chegar perto de Militão, deu elegante guinada no ar e, virando-se
para as companheiras, comandou o coro:
- Viva o coronel Militão Fagundes!
Viva! gritaram todas, entusiasmadas.
Só então o coronel lembrou-se que aquele era o dia de seu aniversário.
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Ao longo de pouco de mais de
vinte anos o coronel Militão Fagundes contou fatos tão inusitados, acontecidos com
animais existentes em suas terras, que, juntando-os deparamos-nos com fantástico painel.
A começar por aquele "cusco vago", loco de ligêro mas flor de
boleado, que apareceu um dia na fazenda. Cruza de perdigueiro e pastor, desprezava as
perdizes e preferia correr atrás das emas. Um dia ele estava quase pegando uma
choca por sinal quando a enorme e assustada ave bateu com violência no arame da
cerca, expelindo um ovo que acabou batendo na cabeça do perseguidor, "com tanta
força, mas tanta, que o matou ali mesmo"...
Os estribos de prata dos arreios usados no cavalo do coronel várias vezes protegeram-no
das cobras mais peçonhentas e fulminantes; só meses depois os objetos iam-se
"desintoxicando" e readiquirindo a cor normal.
Outro estribo inchou tanto com uma picada de víbora que "perdeu a serventia". O
coronel aproveitou então toda aquela prata e mandou fazer doze colheres de sopa. Com o
tempo, a prata desinchou, reduzindo as originais ao tamanho das de chá.
A quem fosse na sua casa, Militão Fagundes oferecia a prova de veracidade da história,
mostrando as doze colherinhas...
As mandiocas da plantação do coronel cresceram tanto que as extremidades de algumas
delas invadiram a vizinha propriedade de seu amigo Horizontino. Uma porca de criação
deste último foi comendo a parte interna de uma dessas mandiocas e, quando terminou,
estava já vários metros dentro das terras do coronel Militão...
Ainda bem que eram compadres, senão Horizontino poderia até pensar que Militão lhe
roubara o bicho.
O coronel conseguiu criar uma traíra guacha longe da água. Quando ficou
mais velha, ele resolveu jogá-la no açude. O animal acabou morrendo afogado, pois não
aprendera a nadar.
Um boizinho atropelou o capataz do coronel, Macário. Este ficou furioso e, insano,
descarregou a raiva no pobre animal, surrando-o barbaramente. Só parou quando ouviu os
mugidos já fracos e prolongados do bicho, dizendo audivelmente, com voz cavernosa:
"Chega, Macário, chega!"
O peixe que o coronel conseguiu pescar no seu açude era tão grande, mas tão grande, que
foram necessários vários homens para retirá-lo da água. Quando isso finalmente
aconteceu, a água, que até então estava pela cintura, baixou imediatamente para a
altura das canelas.
Quando o coronel iniciou sua criação de abelhas, mandou colocar sua marca na asinha
direita de cada uma delas. Conseguiu depois cruzar abelha com vagalume, obtendo assim um
inseto que também produzia mel a noite...
A pontaria do coronel era infalível. Sempre que via algum tico-tico pousado em cerca,
cortava o arame a bala, justamente entre as patinhas do passarinho. Divertia-se depois com
o bichinho tentando segurar as extremidades do fio recém-arrebentado...
A dar-se crédito às narrativas de Militão Fernandes, seus animais de estimação eram
singulares, admiráveis, fantásticos.
O cachorro por exemplo, era o mandalete da casa: ia no armazém, levava carta no correio,
trazia jornal, carne, leite e pão, todo o santo dia.
Na fazenda tinha uma cadelinha extremamente inteligente, dessas de seguir atrás da
charrete. O animalzinho jamais se sujava ou molhava, mesmo ao atravessar trechos alagados
da estrada. Pressentindo o terreno cheio dágua, bastava Militão dar um grito de
aviso. Logo a cachorrinha se colocava bem atrás da roda da charrete e, "muito
ligeirinha", ia pisando o sulco seco deixado pela roda em movimento, assim escapando
da água.
Essa mesma cadela andava certa época comendo os ovos do galinheiro. Para fazê-la parar
de vez, o coronel mandou cozinhar um ovo e, quando este estava bem quente, enfiou goela
abaixo da bichinha, Que saiu ganindo de dor. Militão pensou ter resolvido o problema. No
dia seguinte, porém, a cachorra voltou ao galinheiro. Continuou comendo ovos. Antes,
porém, assoprava bastante...
A charrete de Militão era puxada pela Branquinha, uma égua por cujo trote
cronométrico e uniforme dava até para acertar as horas. Certo dia, o cebolão do coronel
acusou atraso de um minuto, comparativamente aos exatos trinta e quatro gastos pela égua
para chegar à cidade. Foi direto à relojoaria para conserta-lo. O relojoeiro, porém,
garantiu estar o mesmo bem regulado. Intrigado, Militão resolveu vistoriar a charrete, o
problema deveria estar nela, alguma balaca do freio, coisa assim. Nada encontrando,
decidiu retornar à fazenda. Somente então notou estar a égua "uma coisinha de
nada" lenta. Na mesma noite, Militão decidiu examinar Branquinha com cuidado.
Descobriu afinal a razão de tudo: a égua ganhara cria nova e o peão, rapazinho
desatento, ao atrelá-la de manhã, não percebera na penumbra, o filhote embaixo dela,
cincando-o junto com a mãe. Acabou deixando o pequenino com as patinhas penduradas no
ar...
O trem, na época de Militão Fagundes, era o grande elo de ligação entre a campanha e o
mundo civilizado. Além de ser a forma mais rápida de transportar passageiros e carga,
levava também os jornais e a correspondência. Por isso, o coronel mandou colocar
porteira e instalar um degrau em determinado ponto junto aos trilhos, facilitando as
paradas. O trem apitava três curvas antes e Militão, quando queria que parasse, acenava
a bandeira vermelha. Ia sempre pessoalmente, para ouvir a última novidade e falar com
gente conhecida. E não se atrasava. Na hora marcada, lá estava ele esperando. Numa de
suas estadas na capital, o coronel contou o ocorrido na única vez que se atrasou:
- Montava o meu picaço, bicho solto de pata mas duro de queixo, e ainda me encontrava
longe da parada, quando ouvi o apito do trem. Sentei as puas e o animal saiu galopando que
nem louco. Avistei a parada, mas era tarde: o trem já começara a passar. Tentei frear o
cavalo, para não ir de encontro ao trem, mas, por força que eu fizesse, ele continuava a
disparada na direção dos trilhos. Quando chegamos em cima, sentindo que o bicho não ia
parar e que acabaríamos nos esborrachando embaixo das rodas dos vagões, fiz a mira,
calculei bem e grudei-lhes as esporas, fazendo-o pular no momento exato. Era uma questão
de pontaria e consegui: fomos cair exatamente em cima do engate, entre os vagões de
primeira e Segunda classe. Dali pulamos para o outro lado, mal dando para cumprimentar os
conhecidos. Lembro ter ouvido alguém da Segunda classe dizer "Eta gaúcho bom,
esse!. Outro exclamou: "Oigalê, pingo buenaço, tchê!"
(SÁ JÚNIOR, Renato Maciel de. Anedotário da rua da Praia)


Na cabine cabem muitas, mas no coração cabe uma
só
Um pingo de descuido pode custar um mar de lágrimas
Se a morte é descanso, prefiro viver cansado
Não sou ninguém neste mundo, mas sou o mundo de alguém
Cuidado! Eu dirijo tão mal quanto você
A vida é dura para quem é mole
Não julgue o livro pela capa, nem o homem pela profissão. Abra-o e leia-o
Matriculado na escola do mundo não tem férias
Seja paciente na estrada para não ser paciente no hospital
O acidente me paquera, mas eu amo a segurança


A conta dos vivos, quem faz são os mortos
Mal por mal, melhor cadeia que hospital
Manda e descuida, e farás coisa nenhuma
Por falta de um grito, vai-se embora uma boiada
Quem dá o que tem, a mais não é obrigado
Quem erra e se emenda, a Deus se encomenda
Se tem porta aberta, o justo peca
Tem muitos modos de morrer, mas só um de nascer
Vaca de rodeio não tem touro certo
Casa e verá, perderá o sono ou mal dormirá

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