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Caricatura do Guevara

O dia 1º de abril, é conhecido como o Dia da Mentira, e o Almanaque deste mês, traz uma seleção que pode parecer mentira, mas é tudo a mais pura verdade, porque nós estavamos lá e vimos tudo acontecer...

No Rio Grande do Sul, "atochar" significa, popularmente, mentir. Já na campanha diz-se também "queimar campo". A rua da Praia foi sempre o estuário natural para onde convergiram as melhores mentiras aplicadas no estado. O largo dos Medeiros conheceu respeitáveis atochadores. Um deles, de tanto afirmar que seu gato de estimação só fazia as necessidades no urinol, acabou desafiado a provar o disparate, com aposta casada e tudo. Dia mais tarde, trouxe uma fotografia onde o pequeno animal aparecia comportadamente sentado no peniquinho. Afinal, contudo, foi descoberto o truque do desalmado: prendera o bichinho com cola-tudo.

Como se vê, muitos se dão mal. Foi o caso, também daquele sujeito que jurou ter visto uma mula-sem-cabeça passar galopando com freios nos dentes...

Outros até o pescoço arriscam, como aconteceu com o jovem mentiroso que descrevia aos colegas de aula a dramática travessia feita no açude da fazenda do avô:

- ... A uns cinquenta metros da margem ouvi um chocalhar conhecido dentro da canoa: uma cascavel, preparando o bote!

– E o que foi que fizeste?

– Resolvi me jogar no açude. Mas, quando ia me atirar, que azar! Não é que apareceu um jacaré enorme?

– E aí?

– Lembrei que jacaré não morde embaixo d’água. Estava enquandrando de novo o corpo, quando vi na beira, esperando por mim, um índio mal encarado, de olho caído, com a mão na bainha da faca...

Um aluno mais velho, farto e irritado com tanta mentira, interrompeu a história e, puxando o rapaz pelo cotovelo, bafejou-lhe o rosto:

- Só vou te avisar, ô baixinho: se vais nos atochar que escapaste dessa, levas uma bolacha aqui mesmo.

O jovem, sentindo o drama, balbuciou depressa, em retirada e com pouca munição:

- Calma, tu não deixa nem eu terminar, pô! A cobra me mordeu lógico! Agora, vou te contar, se aquele índio não tivesse me socorrido, babau prá mim!

Atochadas como essas não passam, claros de modestas incursões de amadores principiantes. O verdadeiro mentiroso é bem diferente, a começar pelo fato de ser o primeiro a convencer-se da veracidade das próprias afirmativas. Tem senso de oportunidade, imaginação criativa e doses maciças de encenada credibilidade. No fundo é um gozador e os ouvintes as vítimas. A principal tarefa é montar casos rápidos, sem delongas, com lógica e verossimilhança suficientes para impedir qualquer contestação imediata, a grande ameaça. Deve-se evitar excesso de detalhes, pois abrem muitos flancos. Se ninguém protestar, o que às vezes só se consegue com muito constrangimento, a parada está ganha. E se, para realização maior, aparecem uns crédulos, tanto melhor – será puro lucro.

Há divertimentos de grupo em que os momentos de real recreação são curtos e concentrados, alternando-se com aborrecidas esperas. É nesse ambiente que aparecem os atochadores. Por isso, não é de se estranhar que mais mentiras surjam entre pescadores, caçadores ou turfistas. Aliás, pelo paddock do antigo Hipódromo dos Moinhos de Vento, o Prado, desfilaram não apenas cavalos de corrida, mas algumas das mais gostosas atochadas passadas na cidade.

Como a do caçador, cujo cachorro perdigueiro era muito bom e dedicado. Um dia, o bicho embrenhou-se matagal adentro e o dono perdeu-o de vista. Daí a pouco o sujeito viu algo mexer-se no meio do capim alto e atirou sem ver. Ouviu ganido surdo e abafado e, não demorou muito, reapareceu o perdigueiro, arrastando-se com a pata varada pelo tiro. Mesmo assim, ainda abocanhava a perdiz recém-apanhada...

Outro caçador afastou-se durante a caçada e já noite foi dar num rancho no meio do campo, cujo dono ofereceu-lhe pousada e contou que também caçava bastante. No dia seguinte o hospéde estranhou que o outro não tivesse cachorro e perguntou-lhe como conseguia caçar sem eles.

– Não preciso, tenho aquele boizinho ali. Amarra perdiz melhor que qualquer perdigueiro.

Face a descrença do visitante, o anfitrião resolveu fazer a demonstração. Soltou o boizinho, que entrou pachorrento no meio das macegas e logo adiante parou, em completa imobilidade. Espichou então o focinho na direção de um ponto não percebido e levantou a pata dianteira direita, enquanto o rabo ficava reto e paralelo ao chão. Como os dois, postados atrás, não conseguiram localizar a caça, por mais que procurassem, o boizinho voltou-se para eles e, meneando seguida e firmemente a cabeça, começou a fazer movimentos pausados e semicirculares, a aspa esquerda terminando sempre por apontar para o lugar preciso. Foi aí que viram o ninho...

Tinha também a do pescador relatando o acontecido durante solitária pescaria nas terras de amigo da fronteira:

- Achei uma relva bonita, meio escondida, na barranca do rio. Sentei, coloquei o relógio no chão e fiquei ali pescando. Só no dia seguinte, quando voltava para Porto Alegre, notei que esquecera o relógio. Lamentei muito, pois era desses de corda, antigos, relíquia do meu avô. Tempos depois visitei esse amigo de novo e lembrei do relógio. Voltei ao local e surpresa! – ele continuava no mesmo lugar onde o deixara, seu peso chegara a fazer um sulco na relva. Instintivamente levei-o ao ouvido. Ainda funcionava! Sem conseguir explicação para aquilo, recoloquei-o onde estava e fiquei cuidando, escondido, pois havia outro sulco que me intrigara. Só à tardinha a coisa toda se esclareceu: o relógio fora deixado bem no meio da trilha habitual de uma cobra-d’água que, todos os dias, aquela hora, saía de sua toca e se dirigia ao rio; sempre que passava e roçava em cima do relógio, seu corpo comprido fazia girar o botãozinho da corda e...

Ou a do sujeito que ensinou seu gato caçar perdiz e ainda garantia que o bicho era muito bom.

- ...Um dia o bichinho morreu. Fiquei bastante pesaroso e, para guardar uma recordação, mandei fazer um cinto com a pele dele. Tempo depois fui caçar com a tal cinta e aconteceu uma coisa extraordinária: cada vez que havia perdiz por perto o pelo da cinta se eriçava todo!

Lendário "queimador de campo" foi Candinho Bicharedo, homem rude do campo e conceituado domador de cavalos que viveu lá pelas bandas de Uruguaiana nas primeiras décadas do século. Sem jamais ter saído daquela região do Brasil, Argentina e Uruguai fazem fronteira, Candinho, analfabeto porém inteligente e criativo, elaborava a seu modo a carga de conhecimentos recebida do pessoal da cidade. Algumas de suas mentiras restaram antológicas.

A do poço que mandou os vários filhos abrirem atrás do seu rancho, por exemplo. A moçada trabalhou firme meses a fio; toda tardinha terminado o trabalho do dia, o buraco era coberto com toldo, para evitar a queda de algum bicho de pequeno porte. Contou Candinho que certa madrugada, recém-acordado, tomava chimarrão, quando notou alguma coisa embaixo do toldo, forçando-o de dentro para fora. Pensou primeiro em assombração ou lobisomem, mas resolveu esperar. Não demorou muito, apareceu uma mãozinha e logo atrás um homenzinho "deste tamaninho", todo peludo, que perguntou:

- O senhor que é o Candinho Bicharedo?

– Sou eu mesmo. Seu criado, às ordens.

– É que venho le pedir um favor, pois sei que o senhor é um homem justo. Queria que o senhor parasse com a perfuração.

– Mas, por quê?

– É que já tá começando a furar o chão da minha casa...

O próprio Candinho arrematava a história, pachorrento...

- ... Aí é que me dei conta. Os guri tinham dado lá no meio dos tales de esquimaus. Mandei suspender tudo, na hora.

Embora jamais tivesse conhecido o mar e seu horizonte líquido não ultrapasse os rios Uruguai, Ibicuí e Quaraí, contou ter conduzido uma tropa de dez mil cabeças de gado até um saladero em Portugal.

- ... Fui por terra até o Recife. Larguei o gado na água e atravessei a nado o tal de Oceano Atlântico. Vendi toda a tropa em Portugual e, guaiaca cheia, saí pra farrear. Me meti em briga, vieram os comissários, eu reagi e, peleando, recuei até o mar, onde tive de me atirar de pala e tudo. No meio do caminho de volta, um tubarão me atacou. Enquanto me esquivava das bocanhadas dele, tirei a faixa da cinta, lacei um dourado e comecei a fugir. Quando avistei as barrancas do lado brasileiro, tirei a espada de um peixe-espada e joguei ela na goela do tubarão, que estrebuchou ali mesmo. O resto do trajeto fiz a nado mesmo.

Pouco anos depois da I Guerra Mundial, a completa novidade era a "máquina de fazer pinto" recentemente instalada na região.

Candinho passou pela chocadeira e notou grande quantidade de sabugos de milho branqueando ao sol. Várias entrou no boliche à beira da estrada e explicou como funcionava a "coisa":

- Tão vendo aquela montanha branca, lá? Pues é ovo. O ovo entra por um lado, faz plim! E do outro lado já sai o bichinho piando; a máquina na verdade só descasca o pinto, sabe?

Ele e seu Mano eram domadores. Recolhiam os cavalos nas fazendas da redondeza e levavam-nos para seu rancho, onde moravam com a mãe, Joana. Toda tardinha – a hora ideal – realizavam a doma dos animais. Candinho não deixava por menos: considerava-se o maior cavaleiro da fronteira oeste.

- ... Melhor que eu só a Mãe Joana, uma ginete bárbara. Certa vez apareceu um aporreado que nos deu um baile. Mãe Joana resolveu domá-lo enquanto eu e o Mano ficávamos de amadrinhadores. Mas o xucro era um problema e saiu em disparada com a mãe Joana na garupa. Perdemos os dois de vista. Passou um mês e nada de voltarem. O Mano achava que ela morrera, eu dizendo que não, que era boa ginete. Meses depois estávamos tomando chimarrão na porta do rancho, quando ouvimos trovoadas se aproximando ao longe, em meio a nuvem de pó. Chegando perto deu pra ver melhor: era a Mãe Joana com o tal cavalo. Corremos até ela e pedimos a benção. Pues não é que a velha passara tanto tempo misturada só com cavalos, solta pelo Rio Grande afora que me deu um relincho de resposta!? Teve de aprender a falar de novo!

Noutra oportunidade, Candinho perdera-se dos amadrinhadores. Corcoveando com nosso herói em cima, o cavalo foi dar nas margens do Ibicuí.

- ...Aí, aproveitando o corcoveio e usando bem as rédeas e as esporas, consegui com as patas do animal escrever na areia algumas letras do alfabeto.

– E para quê? – perguntou um ouvinte.

Pues, para deixar uma mensagem para os amadrinhadores. Eu tava meio desorientado e perdido.

– E o que dizia a mensagem?

– "Por enquanto eu vou indo bem."

Outro célebre atochador foi o doutor Mauro Lanta, médico em Pelotas, cujas narrativas baseavam-se sempre em fatos reais. Contava ele que em 1939, algum tempo depois de formado, foi passear na Europa acompanhado da mulher, Zilda. O final da viagem foi a Itália. Ao desembarcarem em Roma, lembraram-se de visitar o cardeal Eugênio Pacelli, secretário do Papa Pio XI, a quem haviam conhecido anos antes em Paris, durante o curso de medicina.

Desatualizados com o noticiário internacional, face às lides turísticas, desconheciam que novo papa fora eleito, sendo justamente aquele o dia de sua sagração. Dirigiram-se pois à praça de São Pedro, no Vaticano, e enfiaram-se no meio da multidão de fiéis. Empurrando a turma e aproveitando para aproximar-se sempre que os outros se ajoelhavam, acabaram chegando bem perto. Assim, quando o novo papa, Pio XII, assomou à janela, o espantadíssimo Mauro gritou:

- Pacelli!

O papa reconheceu aquela voz familiar e exclamou lá de cima:

- Mas é o Mauro!... – e, olhando melhor:

- ... e a Zilda também!

Ficaram então gesticulando e se abanando o tempo todo, enquanto se desenvolvia a cerimônia. Na primeira oportunidade, o papa abandonou o cortejo e foi abraçá-los:

- Mas, Mauro, tu não me avisas! Subam, venham comigo. Vamos dar uma volta na praça, que eu preciso muito falar contigo.

Percorreram então aquela massa de gente, conversando muito, enquanto Pio XII distribuía bençãos aos fiéis. A certa altura, denotando cansaço, o papa pediu:

- Ô Mauro, isto está ficando muito atrapalhado. Façamos o seguinte: tu vais benzendo os do teu lado e eu benzo os do meu, está certo?...

O doutor Lanta declarava-se grande adestrador de cavalos. Atrelava sua égua Lapinha à charrete e saía a passear pelo campo, voltando sempre às sete da noite em ponto, quando Zilda servia sempre o jantar.
O médico relatou ao grupo de amigos o acontecido num começo de noite, quando, longe de casa, constatou faltarem apenas dez minutos para as sete. Mesmo sendo praticamente impossível chegar a tempo, gritou:

- Toca, Lapinha!

A égua partiu em galope fácil. Muito bem ensinada, entrava pelos melhores atalhos, evitava as cercas e circundava as canaletas das plantações de arroz, escolhendo o caminho.

- ...Até chegarmos a um aramado comprido, com a porteira fechada. Não dava mais tempo. Resolvi arriscar tudo. "Pula, Lapinha!"... E não é que ela pulou mesmo!

– Espera aí, e a charrete? – protestou um dos presentes.

– Ora essa, pulou junto! – disse o mentiroso, sem pestanejar. – Cheguei em casa exatamente na hora que a Zilda colocava a sopeira na mesa!

(SÁ JÚNIOR, Renato Maciel de. Anedotário da Rua da Praia)

Existiu em Piracicaba um senhor de nome João, falecido talvez há uns dez anos, e grande contador de mentiras de caçadas e pescarias, um autêntico êmulo do Barão de Munchhaussen e do nosso Joaquim Bentinho "Queima-Campo" (criação de Cornélio Pires).

Segundo informações das pessoas que reproduziram os seus casos ao anotador (informantes de mais de 60 anos), era esse senhor um capitalista, herdeiro de fazendas, vivendo dos seu juros e morando no centro da cidade. Mas, grande aficcionado da vida do campo, passava a maior parte dos seus lazeres por lá, de caniço e espingarda, e, na volta, contava no clube e em bancos de jardim as maiores lorotas, na sua rodinha restrita de amigos.

Os casos do João da Curva, dos quais o anotador registrou quatro, fizeram época no local e, até hoje, correm de boca a boca, sendo a mais popular a célebre estória de caçada do veado na curva, donde lhe proveio a alcunha.

João da Curva contava que era uma caçador que só se saía bem em tudo.

Uma vez ele disse que perseguia um veado no mato, e o bicho vai e começa a correr por uma estrada.

Então o veado vira uma curva bem fechada, mas João disse que não se apertou: rápido entortou o cano da espingarda e mandou fogo.

Quando ele foi ver lá, lá esta o bicho estendido. E era um mateiro bem taludo, quase do tamanho de um boi.
Era um caçador mesmo de muito tino e experiência.

(Sebastião Alves de Camargo)

João da Curva contou que ia pescar todos os dias e trazia sempre pra casa muito peixe que ele pescava. Nunca faltava peixe lá.

Mas uma vez estava de cama e não foi; e chegaram umas visitas.

As visitas vendo ele deitado, falaram:

- Nossa, "seu" João! Logo hoje que nós viemos aqui pra comer uns peixes, o senhor aí deitado e não foi buscar?

Ele, querendo dar gosto pras visitas respondeu:

- Mas não seja por isso! Eu pesco aqui mesmo de casa.

Ele se levantou e chamou a mulher:

- Maria! Traga o sondá!

A mulher trouxe, ele foi no banheiro e enfiou o sondá na bacia da privada. O fio diz que foi indo pro esgoto e chegou até o rio.

E João foi puxando, puxando. E tirou um baita "dourado" de uns cinco quilos e já mandou ele pra cozinha, pra que amassem ele pras visitas.

(Sebastião Alves de Camargo)

João da Curva diz que resolveu ir caçar num dia de Sábado de Aleluia. Juntou os amigos e foi. E nem ouviu a mulher, que pedia pra ele que não fosse pelo amor de Deus, que todo mundo diz que não presta ir caçar nesse dia santo. Ele falou para a mulher:

- Ara, mulher! Deixa disso!

E foi.

Mas nessa caçada aconteceu coisas de arrepiar o cabelos!

A cachorrada diz que, numa hora saiu correndo. Corriam daqui, corriam dali, e ninguém via a caça. Depois pararam num buraco de toco de árvore e ficaram ali, latindo e acuando não sei o que. E era um buraquinho bem pequeno aquele da árvore.

João da Curva desconfiou que qualquer coisa não estava certo naquilo. Cismou que naquilo tudo tinha assombração. Fez o "pelo sinal" e gritou:

- Pela alma de Nhá Antonia Paca! Diga que "tá"aí!

Diz que 'garrou a dar um cheiro de enxofre e um "cusa-ruim" feio saiu do toco.

João da Cuva acomodou os cachorros e disse pro "cusa-ruim":

- Vai te pro inferno, "cusa-ruim"! Vai descansar em paz!

E o diabo sumiu no ar.

Mas isso não foi nada. Logo depois a cachorrada 'garrou correr atrás de um veado e o veado entrou num outro toco.

João da Curva já desconfiou que era outra alma penada e disse:

- Vai em paz, irmão! Quem é você?
O veado saiu do toco e disse para ele, rindo:

- Eh, João da Curva! É você que tá aí? Você se lembra de mim? Eu sou o finado Valverde. Tô com a minha alma aqui, presa num veado!

E João da Curva:

- Eh, Valverde amigão! Há quanto tempo! Lembra do nosso tempinho de escola?

E ficaram os dois ali, naquele "bate-papo" de amigos lembrando "tudo o passado" deles.

Depois João da Curva fez o "pelo-sinal" e disse":

- Vai com Deus agora, Valverde! Vai descansar!

E o veado sumiu no ar.

Quando chegou em casa e João contou tudo aquilo pra mulher, ela disse:

- Eu bem que falei que não presta ir caçar no Sábado de Aleluia. As almas penadas andam tudo solta!

(Edmundo Frota de Andrade)

João da Curva foi uma vez pescar com uns amigos. Mas viu que os amigos não pegavam nada; todos os peixes estavam amontoados pro lado dele.

Os amigos estavam brabos e já xingando, e João da Curva até fisgava peixe pelas costas, de tanto que tinha ali na frente dele.

João da Curva ficou cismado com aquilo e descobriu que os peixes estavam todos ali era por causa do barulhinho do seu relógio "Roskoff", que ele tinha no bolso.

Terminada a pescaria, João da Curva dependurou o relógio num galhinho de árvore e foram todos embora. João da Curva esqueceu o relógio ali e nem se lembrou mais dele.

Passados uns seis meses, João da Curva foi fazer outra pescaria com outros amigos. Já de longe, diz que escutou: tic tac! tic tac! O relógio ainda estava ali, trabalhando.

Então, João da Curva disse:

- É aqui que vai ser o lugar bom pra pescá hoje!

Todos olharam pro rio e viram que ele estava coalhando de peixes! Os peixes daquele outro dia ainda estavam ali, de tanto que tinham gostado do barulinho do relógio! E tinham dado cria e criado família ali mesmo, sem coragem de saírem de perto do "Roskoff".

(Edmundo Frota de Andrade)

(FERNANDES, Waldemar Iglesias. 82 estórias populares colhidas em Piracicaba)

***

E o que adianta?
(à Margarida Lopes de Almeida)

- Quando eu casei co a Celeste
Capáiz de eu tê maginado
Que ia sê tão desgraçado!…
- Mais… será que ela é uma peste?

- Nem me fale! É a pió que exeste
Me traiz de canto chorado
Tem um gênio arreminado
Que – eta! – é a coisa mais agreste

- Mais, ói: Im casa, nhô Ná
Marido é que é o reis. Será
preciso, inda, que eu le insine?

- E o que dianta, nhô Cortéiz
Lá im casa, eu sê o reis
Se a Celeste é o Mussuline?


Especiarmente…

- Anto’onte, o desinxavido
Do Istevo de nhá Lorença
Me agarantiu, que ele pensa
Que eu sô munto parecido

C’o seu cumpadre nhô Proença
(que inda é meu desconhecido)
O que acha mecê, nhô Lido:
Nóis tem, mesmo, parecença?

- Ara! Se tênhum, nhô Adãao!
Mecê e cumpadre, junto
Ficum que-nem dois ermão

Oí: Mecês dois (pode crê)
Se parecem, mermo, munto
Especiarmente mecê!

(COSTA, Fontoura. Matutices)

Avô e avó

Na ante-sala da Academia, conversava-se sobre a situação de Coelho Neto, que acabava de tornar-se avô, quando Lauro Müller, que se achava no grupo, declarou:

- Você vai sentir, agora, Neto, a mais doce modalidade da paternidade. As minhas definições são estas.

E declinou:

- Avô: pai, sem exigências.
– Avó: mãe com açúcar.

Pratiotismo

Meses após a proclamação da República, encontrando-se o visconde de Taunay com Benjamin Constant, pôs-se este a queixar-se amargamente do regime por ele próprio implantado.

– Olhe – dizia – eu contava com sincero patriotismo e só tenho encontrado "pratiotismos". Conhece esta palavra?

Taunay fez um sinal significativo. E Benjamin:

- Inventei-o para o meu uso; há simples transposição de um r da segunda sílaba para a primeira. "Pratiotismo" é o amor incondicional, acima de tudo, do "prato", da barriga, do interesse, o sentimento que inutiliza, espezinha e conculca o patriotismo.

(CAMPOS, Humberto de. O Brasil anedótico)

 

Anúncio na Revista Fon Fon - 21/01/1928

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